As roídas de inveja - dedicatória a duas colegas

25 outubro 2018

Tudo isto aconteceu há três dias atrás, mas… como esquecê-lo? Chegava ao estacionamento e lá vinha a colega R. B. com a sua herdeira. Veio logo a correr, aos gritos, a chamar por mim. Eu entendi a sua reacção, até porque é algo que as pessoas fazem sempre que me encontram, mas a menina ainda não tem entendimento e notei que se sentiu um pouco desconfortável ao ver a sua mãe naqueles preparos. Não se deve sentir vergonha de uma mãe, eu não sinto da minha, mas ela também nunca me saiu do carro, a correr e a chamar por quem passa.
Mas dizia eu, a colega R.B., esse marco de discrição, saiu do carro a chamar assim:
- Pchté! Eh! ‘Tão!
Confesso que, pela delicadeza do chamamento e pela variedade vocabular, pensei  fossem os alunos a reagir à minha passagem, mas não. Era ela.
- Olá, R.! Então hoje trazes a tua pequena M.? – respondi eu, num tom de voz bem colocado, para que, sem que me obrigasse à indelicadeza de lhe dizer, ela percebesse que tinha de estar  à minha altura, coisa duplamente difícil, dado o pouco mais de metro e meio de elegância que a colega ostenta.
- ‘Tão? – perguntou, carregadinha de modos e um sorriso rasgado.
Eu como não entendi a pergunta, não sei se por ser um pouco vazia de sentido, se por causa dos meus problemas de compreensão de enunciados orais, comecei a falar com a pequena M., que do alto dos seus 10 anos, manifestou um discurso mais rico e incomparavelmente mais coerente. E perguntei-lhe:
- Olha, queres vir à minha aula?
- Não! – respondeu a petiz de imediato, enquanto balançava negativamente a cabeça e todo o seu pequeno corpinho. Percebi logo que queria ir.
Ante o toque de entrada e a iminência de ir para a aula de Matemática da mãe, decidiu, sem surpresa, ir para a minha de Português. Os meus jovens alunos estavam a fazer o teste, então sentámo-nos lado a lado a desenhar. Devo dizer que fiquei, perdoem-me, ficou impressionada com o meu talento artístico.
Ao toque de saída, disse-me que tinha gostado muito e até acrescentou:
- Para te mostrar que gostei muito, sabes uma coisa?
- Não – respondi.
- Para a semana conta comigo! – assegurou com a felicidade estampada no rosto.
Ora depois deste episódio, já à saída da escola, encontrámos quem? Naturalmente, a colega I.O. que anda sempre a fazer-se notar para ver se entra aqui. E se muitas vezes a ignoro, ali não o podia fazer. Ao aperceber-se da vontade da pequena em voltar a ir à minha aula, sabe, caro leitor, o que lhe disse?
- Olha, queres ir à minha aula de ciências? Vai ser uma aula prática, vai ser muito gira! – isto acompanhado daquele sorriso que já se lhe conhece e que até enerva.
A petiz vacilou. A pequena ainda não aprimorou o gosto e parece que é a sua disciplina favorita. A mãe, essa, incentivava-a, enquanto me enfrentava com um olhar ressabiadíssimo. A colega I.O. olhava-me, também, desafiadora. Eu, cá mantive a elegância e só disse:
- ‘ aula de Ciências, sim, giríssima, só pedras , uh uh, isso sim, uma aula, ahhh…
E a passos largos subi as escadas, esbracejando e maldizendo o mundo.
E assim foi o dia.

A revolta da 'rouxinola'

22 outubro 2018


Eu entrei na aula e disse que queria começar a trabalhar, o que é natural, pois sinto que um salário como o que o sr. Ministro me paga tem de ser merecido. É por ele que me entrego a cada aula. Pelo salário, entenda-se, que eu tenho melhor partido.
Mal começo a corrigir uma fichinha (sim, que eu cá não brinco e ele é fichinhas a toda a hora), a T.B. voltou à expressão da sua revolta. Que entende que o feminino de rouxinol, em vez de rouxinol-fêmea, tem de ser rouxinola. A petiz disse aquilo com tanta veemência, que fez com que lhe perguntasse, o porquê da sua convicção:
- Oh pressora, ‘tão não vê que assim só se escrevia uma palavra?!?
-Tão não vejo, T.?!
- É que rouxinol fêmea são duas palavras e isso assim dá mais trabalho, percebe?
Eu percebi e até lhe tenho de dar alguma razão. É que, parecendo que não, há todo um investimento a vários níveis: ele é o tempo que se perde, ele é a tinta da esferográfica que se gasta, ele é todo um movimento de dedos e pulso que, repetido, é tendinite na certa. A aula, como pode ver, caro e paciente leitor, até estava a prosseguir dentro da calmaria pedagógica que se deseja para o processo ensino-aprendizagem, porém:
- Ai! A ambulância!! ‘Tá ali, vêem? - a má dicção que aqui se transcreve pertence ao nervosismo da M.E., sempre preocupada com o bem-estar da humanidade.
Logo se alevanta o burburinho de quase todos os diligentes jovens, dispostos a tudo para saber quem era o(a) aleijadinho(a). Quase todos, caro leitor. Faltava a T.B., a quem a revolta da rouxinola lhe paralizara no rosto um sinistro sorriso. Com as mãozinhas juntas, os dedos entrelaçados e o olhar perdido num lugar só dela, exclamou com perfídia:
- Oh, quem será?
Confesso que ao olhá-la se me arrepiaram “as carnes e os cabelos” de ouvir e vê-la.
Depois, ainda naquele transe obscuro, assegurou que sabe sempre as horas a que todas as turmas estão no ginásio, para saber quem se aleija. Eu, que até aqui tinha sentido algum medo, ao ouvir isto decidi que nunca vou aborrecer esta jovem e que se ela quiser nem precisa mais frequentar as aulas, que lhe asseguro a minha melhor positiva. Que eu cá sou justa e essas coisas, mas prezo muito o valor da vida. E a expressão que lhe vi, mostou-me que é capaz de qualquer coisa.
Depois deste sinistro momento, a aula prosseguiu, mas eu estive já sempre com um olho no burro, outro no cigano, não fosse o diabo tecê-las. E foi neste ambiente agradável que o P.C. fez um comentário que não entendi, tendo-lhe perguntado o que dissera. Ouçam esta pérola:
- Nada pressora, o que é mais extraordinário é a pressora ainda achar que eu digo alguma coisa de jeito.
Antes de manifestar qualquer reacção, olhei para a T.B. para ver qual era a sua. Como se sorria, eu também esbocei um sorriso. Não é que eu seja medrosa, mas depois de tudo o que lhe ouvi, achei por bem tomar alguns cuidados.
Assim, de repente, rouxinola até nem soa mal...
E assim vão os dias.

Uma aventura nas escadas

16 outubro 2018


Na primeira aula de hoje estive mesmo para me aborrecer, mas pensei nos vinte e tal anos que me faltam para a reforma e decidi relevar a pergunta do T.S.:
- Atão vamos lá a ver, por que é que a pressora faltou?
- Porque caí . E, sim, estou a coxear, mas não me dói nadinha – disse logo eu, antes que começassem com as conversas do “devia ter ficado em casa. Devia cuidar mais de si”.
Noventa minutos depois, sequiosa, comprei uma água e desci. Pelas escadas. Saltitando, para não apoiar muito a perna que me dói, mas eis que sinto um fraquejar de músculo na outra e o tombar molemente deste corpinho que me enforma. O cóccix ainda roçou o degrau.
- Atão, Antónia? – era a colega I.O., que, sorrateiramente, vinha atrás de mim e que, em vez de me segurar, optou pela pergunta que se acaba de transcrever.
Ainda estive para lhe responder, mas em vez disso certifiquei-me de que o cabelo estava bem, e levantei-me, ou melhor, tive essa intenção, pois eis que senti novamente o fraquejar da perna sã. O corpo em desequilíbrio poderia ter rebolado escadas abaixo, pernas para um lado, braços para o outro, fracturas expostas, olhos esbugalhados ante a iminência do fim, padre chamado à pressa para a extrema unção, mas não, nada disso aconteceu. Inadvertidamente, deixei-me cair sobre os degraus, onde me quedei muda e sentada. Assim, em grande, com toda a gente a ver. Em baixo estava a colega D.G., que visivelmente preocupada me disse assim:
- Atão, mulher?
Tratei logo de tranquilizá-la, dizendo que estava tudo bem, ao que me respondeu que deixara a argila, a tal caríssima que faz milagres, com a D.ª S..
Saíamos as três, e porque a justiça pode tardar, mas sempre chega, a colega I.O. entrou num desequilíbrio desprovido de qualquer elegância e quase morria ali, à nossa frente, sem padre para o derradeiro sacramento.
Eu disse logo:
- Atão, I.?
E a colega D.G., sempre a zelar pelo bem estar dos seus professores, acrescentou:
- Eh pá, vocês não me arranjem problemas! Esbardalhem-se fora do portão da escola! – isto dito de bracinhos no ar.
Comoveu-me, confesso, e é neste estado de emoção que nos deixa a sós. A colega I.O. entre um ou dois dedos de conversa, decidida, pegou na minha garrafa de água, bebericou e colocou-a junto dos seus pertences. Tudo isto sob o meu olhar atento. Prosseguiu a conversa e eu, serenamente, mas já muito capaz de lhe atirar à cara duas ou três palavras mais rudes, puxei a garrafa para junto de mim. Notei-lhe um olhar que dançava entre o pasmo, a confusão e a raiva. Na sua expressãozinha, lia-lhe o pensamento: “Esta gaja vai roubar-me a água?”, ao que a minha mente respondia “Só estou a reaver o que é meu”. Foi nesta guerra mental que terminou a conversa. Entrámos. Ela sempre de olho na minha garrafa, eu sempre de olho no olhar dela, num verdadeiro duelo de silêncio. Separámo-nos. Ela foi à sua vida e eu à reprografia buscar a argila dos milagres. A D.ª S., assim que soube para que era, e que era coisa caríssima, começou logo com uma dor numa das mãos. Que até tinha um caroço, dizia. Não é que seja má pessoa, que não é, e eu preciso que me tire as fotocópias, mas às vezes é bocadinho dramática.
O dia findava, entrei na sala de professores e disse, com toda a bondade e nada de ironia:
- Vou para casa, colegas. Que se divirtam muito.
E vim, com a argila da D.G. , à espera de um milagre. Ainda caminho a arrastar as perninhas. Sim, coxeio das duas: uma por causa da queda de ontem. A outra, porque me tenho de apoiar mais nela. E o cóccix também não está nada bem. Só espero que não me apareça um carocinho na mão. Porque aleijadinha das pernas ainda aguento. Agora com uma dor lancinante no membro superior é impossível. Que o diga a D.ª S., coitada.
E assim vão os dias.

Crónica do dia de ontem, a pedido.

15 outubro 2018


Dar aulas é também saber estar. E se pedagogicamente sou de uma competência que não cabe nestas linhas, também a minha presença é notada. Ontem, como todos os dias desde há vinte  anos, aperaltei-me para ir dar as minhas aulas. Mal sabia eu que estava na mira da Providência, que justamente à hora de sair de casa e sem qualquer aviso prévio, decidiu enviar à terra o segundo dilúvio.  
Preocupada com o aprumo do penteado, embrulhei a cabeça no cachecol, peguei no trolley, chave de casa, chave do carro e fiz-me à vida, sem saber que a morte me espreitava. Ali, mesmo ao virar da calçada.
Surdo às minhas preces, inclemente, o céu cuspia-me com desprezo, enquanto eu encetava uma elegante corrida até ao porto de abrigo. Não o alcancei. Num enleio de pés, pernas e mala, airosamente, estatelei-me no chão, enquanto grossas bagas de chuva me escorriam pelo rosto, deslizando até à boca, que elegantemente vociverava os mais finos impropérios. Levei a mão à cabeça. O penteado não resistira! “Morro aqui”, pensei, sozinha, nesta calçada, toda despenteada. E deixei que uma lágrima se juntasse à chuva que me molhava o rosto. O corpo todo.
Levantei-me, e, a arrastar a perna, voltei para casa. Precisava pentear-me. Liguei para a D.G. e disse-lhe que ia faltar à primeira aula, que enquanto não parasse de chover sentia não estarem reunidas as condições necessárias para desempenhar dignamente o meu trabalho. Ela disse que estava bem. Ela é muito compreensiva. Até me disse que tinha uma argila muito boa, caríssima, que fazia milagres a quem arrasta a perna e que ma ia levar, que ia ver que ficava boa num instante.
Terminado o dilúvio e já penteada, lá fui, puxando pela perna, para as aulas que faltavam e à passagem pelo corredor, vá de ouvir a previsível interrogação retórica:
- Atão a pressora faltou?
- Não. – respondia. Secamente.
- Atão a pressora ‘tá a coxear?
- Não, estou só a fingir. – retorquia, ante o olhar confuso dos petizes.
- Atão mas o que é que aconteceu?
- Caí. E já está. – e lá continuava, desempenada, a puxar pela perna.
Lá consegui dar as aulas. Numa delas, fiquei a conhecer melhor a T.B., que ante um exercício, confidenciou em alta voz e sorriso seguro:
- Oh pressora, é que eu sou mesmo burra, burra. Eu tenho cérebro, , mas parece que não gosto de o usar. Não gosto de pensar. Vou casar-me com um homem rico e pronto. Mas se não conseguir, arranjo um emprego.
A isto chamo eu uma lição de empreendedorismo.
E assim, a arrastar a perna, vivo os dias.


Três vidas, um espanhol e dinheiro mal gasto

11 outubro 2018


Hoje senti medo. Creio que foi a primeira vez que me aconteceu sentir medo na escola, mas hoje senti-o. E não gostei.
Depois de quase ter sido vilmente atropelada pela colega E.C. que há muito anseia pelo meu fim, coisa que não me incomodou, encontrei a colega T.B. e, juntas, transpusemos o portão. Descontraidamente, com a elegância que nos é habitual e que, momentaneamente, quis parecer-me, silenciou o recinto do burburinho do intervalo, ouvindo-se apenas um “ah” de puro êxtase, lá nos dirigíamos para a entrada do bloco.
-QUEM  É QUE FOI  DIZER À PRESSORA QUE EU TINHA ESTADO NO CONTINENTE SE EU NÃO ESTIVE LÁ?!?
O caro leitor que me perdoe a gritaria, limito-me a reproduzir o que a  E.D. dizia, enquanto  se me dirigia de mãozinha apoiada no quadril. Quando me apercebi que era comigo, embora não quisesse demonstrar o temor que me tomou, tanto, que até me escondi ligeiramente atrás da colega T.B., respondi-lhe aquilo que nem merecia ser referido, de tão óbvio que é:
- Eu sei tudo, E.! – disse-lhe eu com toda a calma. Só lamento que o caro leitor não possa ouvir a colocação da minha voz...
A colega T.B., que por natureza tem muitos nervos, com o medo, ficou ainda mais nervosa e balbuciava:
- É que a prof. Antónia Mancha…
- É bruxa! – rematei eu, perante o olhar baralhado da colega T.B – Não sou?!? – acrescentei, já com a nuvenzinha da dúvida existencial a pairar.
- Não, não é isso, podemos contar-lhe a verdade, certo, Antónia? – perguntava-me.
- Certo, certo – disse-lhe, também eu curiosa por saber essa verdade sobre mim.
- É que a Professora Antónia conhece muito bem o gerente do Continente – dizia a colega T.B à jovem E., cujos olhos bailavam entre ela e o meu rosto sério.
- Pois sou – disse logo eu – já a pensar numa maneira eficaz de “limpar o sebo” ao colega P.C., pelos boatos que levanta.
Ora ao entrar na sala de professores, encontrei justamente o referido colega, cresci para ele de uma maneira, que até notei que alguns dos presentes, vendo que estava de cabeça perdida,  se me acercaram para me deter.
- Olha, ainda não saiu o casamento e quero o divórcio já!! – vociferei, enquanto lhe gritava na cara (com elegância, claro está)  a jura que aluna havia feito, garantindo que não havia estado naquele espaço comercial.
- Ai a mentirosa! – disse com uma expressão, na qual se notava muita sinceridade. E não sei se por isso, se pelo amor que é cego, perdoei-lhe e fui para a aula, que embalada pelo bem estar com que o perdão nos aconchega, me correu muito bem.
Isto dos processos irregulares de formação de palavras tem muito que se lhe diga e este ano não foi excepção. Lá comecei com a ida ao Shopping, onde comi uma pizza e tomei um capuccino, tendo depois entrado numa loja e comprado um abat-jour .
- O que é isto, moços? – perguntei, muito segura de que saberiam a resposta.
- Gastar dinheiro, pressora ! – respondeu logo a M.C.,preocupada com a minha economia doméstica. Parece ela que adivinha que anda pelas “ruas da amargura”.
Que sim, dizia eu, que era verdade, mas lá dei nome à coisa, referindo que eram empréstimos e que até havia palavras que nós já “aportuguesámos”, caso de dossiê, dizia.
- Esse é uma adopção!! – disse o P.C.
E eu avancei logo, para não lhe responder aquilo que me veio à cabeça.

 (Momento de recuo no tempo, vulgo analepse)
Na semana passada contei aos moços quem era o Pepe. Aqui vo-la apresento, para que possais entender o comentário do A.T.


 (Fim do momento de recuo no tempo)

Depois, foi a vez das onomatopeias. Que era uma forma de reproduzir os sons na escrita, dizia eu, e com receio de que os moços não entendessem, vá de dar exemplos. Vi uns olhitos confusos, e vá de reforçar os exemplos:
- Reparem, quando eu faço “toc, toc”, o que é?
- O espanhol sem braços! – respondeu o A.T., recordando-se da belíssima anedota que lhes contara uns dias antes e que se encontra no “momento de recuo no tempo”.
Depois disto, e já noutra turma, vá de pôr os moços a escrever... sentei-me no escritório e dizendo que cada par poderia vir ter comigo três vezes. Que sim, que tinham entendido.
O tempo foi passando, e o F.T. pôs o dedo no ar para pedir a palavra, que lhe foi dada e saiu assim:
- Oh pressora, quantas vidas é que o meu grupo tem?
Confesso que levei um bocadinho a perceber o que me queria realmente perguntar. Mas assim que me apercebi, decidi implementar essa terminologia, de forma que, a partir de agora, dou três vidas aos jovens, quando as gastarem é rezar-se-lhes pela alma.



Destilaria de coiratos e outras histórias

08 outubro 2018


O dia foi preenchido. Começo a notar alguma soltura nos pequenos, que não são os únicos a querer aparecer nas crónicas. É que também os colegas andam a fazer graçolas para ganhar o seu minuto de fama. A começar pela I. S., que trouxe um bolo típico de Portalegre, que era muito bom. Fala-se em comida e tudo em mim se inquieta. Comecei logo a elogiar a colega e a seu altruísmo, manifestado naquela partilha desinteressada de tão rico manjar. Lá pegou numa faquinha e vá de partir o bolinho. “Só um quadradinho pequenino”, disse eu, que de garganeira não tenho nada. E ela insistia em cortar um maior, e eu a insitir no mais pequeno. Assim que dou a primeira trinca e começo a mastigar, fez questão de me informar que o bolo era de Sábado. Ora hoje é Segunda-feira. Mentalmente cuspi-o todo e, enquanto a custo deglutia o pedaço que inserira na cavidade bocal, estendia a mão e oferecia o que restava ao colega P.C., que é outro que anda sempre a ver se petisca a coisa alheia. Falo de comida, naturalmente.
No intervalo seguinte, foi a colega S.R., que diz que vai criar a “Destilaria do coirato”. Pelo que percebi até já tem o espaço e tudo só falta a clientela anafadinha. Eu até gostava de a ajudar nesta ideia empreendedora, mas a elegância que enforma este corpinho não o permite.
Quando cheguei à aula, doiam-me os maxilares, não sei se das risadas se do bolo da colega I.S.
Ao entrar perguntei logo ao T. D. por que tinha faltado. A resposta não se fez esperar:
- Médico, perna, tendão, ruptura.
Como fiquei esclarecida, decidi passar à verificação do TPC., isto já na turma da B. K. , que disse que não o tinha feito porque tinha ido para Aljezur fazer surf, o que considerei uma razão de peso e prossegui, olhando como quem pergunta, para o Q. S., que me disse, num português escorreito:
- Tá ligado, mim sempre faz!
Eu fiquei muito satisfeita com ambas as coisas: o ter feito, mas sobretudo com a correcção do seu português, que não ficou por aqui, porque o jovem decidiu rematar a conversa com:
- Beleza, professora.
Retirando ali a vírgula e pondo a beleza a seguir a mim, fica “Professora beleza”. Foi isso que ouvi e que justifica o sorriso largo que lhe dei.
Depois de verificar e registar no Inovar os incumpridores, tarefa que desempenhei com todo o profissionalismo, vá de começar com o texto de opinião. Vá de dar um textozinho aos moços, vá de o ler com toda a expressividade. Depois deste, vá mais um que contradizia o primeiro. Ora o P. C. começou a sentir-se perdido e quis saber, afinal, qual era a opinião da autora, já que num defendia aquilo que criticava no outro. Para se esclarecer, dirigiu-se-me assim:
- Tão, mas oh pressora, o que é que a senhorinha da coisa da cena pensa? – isto acompanhado de uma expressão de genuína curiosidade.
Ora a “senhorinha da coisa” responde pelo nome de Antónia Mancha, a autora dos textos, ao que o Q. S., indignadíssimo, disse:
- Shiii, deu 30 anos mais p’ra professora!
Eu não respondi, porque o Q.S. reconheceu o quão injusto tinha sido o P.C.
Lá prossegui e, não sei a que propósito, dei graças a Deus por algo que eu própria fizera. Quem não se deixou enganar foi, novamente, o P. C., que corrigiu:
- Graças a Deus, não, à professora.
Ao que eu humildemente respondi:
- É quase a mesma coisa.
Senti o pasmo no silêncio dos petizes, que só foi interrompido por um cochichar lá para as bandas das últimas mesas: “oh, é a pressora que é Deus”. É assim que se criam os boatos, pensei, mas não o desfiz, é que isto da divindade assenta-me que nem uma luva.
Depois deste momento com alguma religiosidade, a M. E. decidiu dizer-me que lhe doía muito o ouvido, estive para lhe perguntar se queria que me calasse, mas como temi a resposta quem se calou fui eu e lá prosseguimos, ou melhor, eu tinha a intenção de prosseguir, os moços é que não estavam pelos ajustes, razão pela qual pus em marcha a estratégia altamente pedagógica da contagem decrescente, que é como quem diz, quando chegar a 1, pedagogicamente o aluno é estrategicamente colocado no exterior, sem que se lhe pergunte  “quereis ir para o exterior”, como fazia o saudoso colega L.P.
- Moços, vou entrar em contagem decrescente! – disse eu decidida.
- Então, pressora, vai à lua? – perguntou a M.F.  com um sorriso rasgado, mas de olhar no chão, o que a salvou de ir ver como estava o tempo fora do espaço da sala de aula.
Depois disto, e do respeito que impõe uma contagem decrescente bem feita, vá de escrever uns apontamentozinhos. Páginas depois, deu-se o seguinte diálogo:
- Há mais alguma coisa pa passar? – questionou o A.T.
- Posso avançar? – perguntei eu.
- Isso responde à tua pergunta? – perguntou a M.F. ao A.T.
Gostei da perspicácia.
Findo o período do apontamentozinho, foi momento de escrever. Que se juntassem em pares (de quatro,perguntaria a M.E. se estivesse na sala) que escrevessem um texto de opinião, instruções dadas, havia que clarificar como funcionava o escritório imaginário: a minha mesa é o escritório, onde cada grupo tem o direito de ir 3 vezes para solicitar apoio. O espaço é envidraçado e a porta é automática, mas o sensor é lento, pelo que, antes de entrarem, devem aguardar um pouco pela abertura das portas.
- Fui clara? – perguntei.
- Sim Dr.ª! – respondeu a M.F. 
Eu cá, como boa portuguesa, gostei logo do Dr.ª e por isso nem liguei ao seu sorriso descarado, enquanto procurava uma folha para começar a escrever. 
E assim vão os dias.

Cheira bem a coscuvilhice

04 outubro 2018

Estava na aula, aquilo tinha mesmo acabado de começar e eu só ouvi “… Português”, é claro que o meu interesse disparou de imediato e perguntei à M. E. o que é que ela tinha dito. Que nada, mas eu cá não sou trouxa e insisti, pensando já no plano B, caso ela se negasse a contar-me, mas ela, desbocada, reproduziu logo o diálogo que culminara com aquela palavra que me disparara o interesse.
Atão foi assim - dizia a M.E. - a J.M. disse que cheirava a bolor e a A. A. disse que não lhe cheirava a nada e eu disse que me cheirava a Português, tipo no sentido de nós estarmos a ter Português.
Apeteceu-me mandá-la calar, quando introduziu aquele “tipo”, como quem vem explicar o jogo de palavras que acabara de fazer, mas, em vez disso, sorri-lhe, pensando no espanto da sua expressão, quando descobrir que há outros verbos declarativos para além do dizer, mas isso são águas que ainda moverão moinhos.
Depois disto, não podia deixar de reparar na expressão compungida da T. B., mas como sou muito perspicaz, percebi logo o que se passava, é que o seu A. T. estava a faltar, parece que foi para Sevilha e ela, não sei se por saudade ou inveja, estava com aquela triste figura. É claro que a referência ao estrangeiro fez logo a M.E. ter uma grande ideia e disse logo que o que estava certo era fazer uma visita de estudo à Isla Mágica. Eu perguntei o que é que a minha disciplina tinha a ver com um parque de diversões, já preparada para uma resposta que me obrigaria a pô-la na rua, mas não, a M.E. surpreendeu:
Atão pressora íamos todos, depois quando estivéssemos na Montanha Russa, só falávamos Português.
É claro que pus o meu melhor ar de espanto e aproveitei para partilhar a minha surpresa por em 20 anos de aulas nunca me ter ocorrido essa ideia, enquanto pensava que Português se poderá falar numa Montanha Russa, surgindo-me todo um leque recheado do mais fino calão.
Por esta altura, vi uns dentes de imaculada brancura, enquadrados num sorriso largo, a espreitar à porta da sala. Era a colega I.O., aquela que sorri tanto que até irrita e que me deixou logo os nervos escangalhados. Sorri-lhe de volta, por educação e prossegui com notícias e reportagens e essas coisas de que se fala nas aulas de Português. Nisto passa a colega M.C. no corredor, atirando um “estou a ouvir a tua aula, estou a gostar”. Ela deve ter ido espalhar isso, porque não tardou nada, foi a colega R.B. quem apareceu. Esta é outra que sorri que se desunha e que me enerva até mais não, que eu cá gosto muito dos semblantes carregados, pela competência que se lhes cola à pele. É por isso que é muito raro alguém ouvir-me a voz e desconfio que ninguém sabe que também sorrio.
Eu bem que tentava dar a aula (que o sr. Ministro tenha lido esta frase), o problema é que me começaram a aparecer aos pares: eu divagava com a eloquência costumeira, eu movimentava-me com a elegância de todos conhecida, eu gesticulava e os meus gestos, não é para me gabar, mas roçavam a delicadeza de uma pluma que esvoaça com a brisa estival de um entardecer, eu fazia isso tudo e os moços, em vez observar-me com pasmo estampado no rosto, tinham o rosto  virado para a porta e sorriam muito. É claro que quis saber que coisa mos tirava assim. Era a colega I.O. e a colega R.B.. Tinham voltado e sorriam até mais não. Que queriam ouvir a minha aula. Que estava boa. Eu cá ia-me já a sair que lhe marcava uma faltazinha disciplinar que era uma graça, mas apercebi-me a tempo de que não podia, por isso fechei-lhes a porta na cara, com a finura que todos me reconhecem.
Lá consegui prosseguir, ainda a tempo de fazer uma pergunta a uma jovem. Não me recordo da pergunta, nem da jovem inquirida, só da resposta da M. C., que disse assim:
Pressora , já a enterrou.
Nisto ouviu-se o toque de saída, que sepultou na eternidade mais um  momento memorável desta arte de ensinar.
Mesmo à entrada do fim-de-semana e à saída da escola encontrei a D.ª F. que me perguntou se ainda estava chateada com ela. Eu até vinha esquecida de que estamos de “candeias às avessas”, mas aquele comentário fez-me reagir assim:
- Olhe, parece que ainda sinto uma magoazinha.
E segui o meu caminho rumo ao sol que se punha e ao feriado que desponta.
E assim vão os dias.

A presidente da junta

03 outubro 2018


Um dia calmo, com uma ou outra coisinha pelo meio. É que isto das coisinhas já são um clássico.
Foi na aula do meio, que é onde está a virtude. Confesso que estava a começar a entusiasmar-me. Digo a começar, porque foi uma decisão de início de ano: tentar manter um perfil de pessoa que aparenta normalidade. Ora o problema é que nem eu sou de aparências e quando a elas se junta a da normalidade é um enredo muito grande, um hercúleo trabalho para o qual me falham as forças. Mas antes que o caro leitor salte já umas linhas, por enfado da paupérrima prosa desta que lhe escreve, dizia eu que estava a começar a entusiasmar-me, sendo o primeiro sinal, as gotas de suor que escorrem pelo rosto. Dirão as más línguas que é porque está um calor que não se pode, mas não ligo a pequenas provocações vindas de quem não quer ver o meu entusiasmo professoral. Ora, uma vez mais, caro leitor, aguente-se nesta prosa, não salte linhas, que vou já contar o que aconteceu.
Tenho um problema, bem, tenho mais do que um, mas este, hoje, despoletou o terramoto na aula. Pedi aos delegados de cada uma das turmas que têm o prazer diário da minha presença nas suas salas para que me lembrassem de escrever o sumário. É que se me esquece amiúde. Vai daí, a S. começou a moer-me logo no início da aula e eu a dizer-lhe que já escrevia e ela a moer e eu a dizer que já escrevia, e ela a moer, até que, prestes do fim, disse assim:
- Oh pressora, ‘tão e o sumário?
- Oh S., quando é que te calas?
Ui! O que eu fui dizer, veio logo a M. em sua defesa, que havia estado francamente mal com a afirmação que transcrevo, mas que me recuso a comentar: “Os word são melhores que os do pressor P. e os powerpoints do pressor P. são melhores que os da pressora”.
Ora a M., defendendo a amiguinha disse assim:
- Mas a pressora disse que ela podia gritar consigo por causa dos sumários.
- Eu?!? – exclamei horrorizada.
- Sim, ela é a Delegada! – respondeu, inchadíssima de vaidade pela alta patente da amiga, como se ela fosse a preseidente da Junta.
- Quero lá saber! – disse eu, acabando logo ali com aquela vaidadezinha.
A S., sentindo-se “ferida de espora”, como o Ramos do conto de Vergílio Ferreira, atirou, fria, contundente, certeira:
- Então, turma, a partir de hoje gostamos todos mais dos powerpoints do pressor P.
Doeu-me tudo por dentro, mas fingi descaso e limitei-me a comentar:
- Tanto te esforçaste, que já vais lá para a cronicazinha.
A petiz ficou nas “sete quintas” e eu a pensar numa maneira de lhe “cortar o pio”.
E assim vão os dias.

Subjetividade em cama de alface aromatizada com "coisinhas"

01 outubro 2018



Entrei na sala e lá estava ele. Com ela. Não a mesma, claro, que o moço tem coração que chegue para todas as moças. Desta vez, a eleita foi a colega M., a quem ele, em nome do cavalheirismo, cedeu a cadeira, mesmo nas minhas barbas. Depois, esgueirando-se e de olhar entornadíssimo que só visto, perguntava-me se lhe arranjava uma moedinha, que não tinha e precisava de tomar café. Que sim, disse logo eu, mas, desengane-se, caro leitor, não havia no meu gesto qualquer vislumbre de embevecimento amoroso. Antes pelo contrário, disse-lhe logo um "está aqui, mas toda a gente vai saber que me deves dinheiro". Eu disse aquilo na brincadeira, claro, não vou agora fazer alarido do dinheiro que o colega P.C. me deve.