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Três vidas, um espanhol e dinheiro mal gasto

11 outubro 2018


Hoje senti medo. Creio que foi a primeira vez que me aconteceu sentir medo na escola, mas hoje senti-o. E não gostei.
Depois de quase ter sido vilmente atropelada pela colega E.C. que há muito anseia pelo meu fim, coisa que não me incomodou, encontrei a colega T.B. e, juntas, transpusemos o portão. Descontraidamente, com a elegância que nos é habitual e que, momentaneamente, quis parecer-me, silenciou o recinto do burburinho do intervalo, ouvindo-se apenas um “ah” de puro êxtase, lá nos dirigíamos para a entrada do bloco.
-QUEM  É QUE FOI  DIZER À PRESSORA QUE EU TINHA ESTADO NO CONTINENTE SE EU NÃO ESTIVE LÁ?!?
O caro leitor que me perdoe a gritaria, limito-me a reproduzir o que a  E.D. dizia, enquanto  se me dirigia de mãozinha apoiada no quadril. Quando me apercebi que era comigo, embora não quisesse demonstrar o temor que me tomou, tanto, que até me escondi ligeiramente atrás da colega T.B., respondi-lhe aquilo que nem merecia ser referido, de tão óbvio que é:
- Eu sei tudo, E.! – disse-lhe eu com toda a calma. Só lamento que o caro leitor não possa ouvir a colocação da minha voz...
A colega T.B., que por natureza tem muitos nervos, com o medo, ficou ainda mais nervosa e balbuciava:
- É que a prof. Antónia Mancha…
- É bruxa! – rematei eu, perante o olhar baralhado da colega T.B – Não sou?!? – acrescentei, já com a nuvenzinha da dúvida existencial a pairar.
- Não, não é isso, podemos contar-lhe a verdade, certo, Antónia? – perguntava-me.
- Certo, certo – disse-lhe, também eu curiosa por saber essa verdade sobre mim.
- É que a Professora Antónia conhece muito bem o gerente do Continente – dizia a colega T.B à jovem E., cujos olhos bailavam entre ela e o meu rosto sério.
- Pois sou – disse logo eu – já a pensar numa maneira eficaz de “limpar o sebo” ao colega P.C., pelos boatos que levanta.
Ora ao entrar na sala de professores, encontrei justamente o referido colega, cresci para ele de uma maneira, que até notei que alguns dos presentes, vendo que estava de cabeça perdida,  se me acercaram para me deter.
- Olha, ainda não saiu o casamento e quero o divórcio já!! – vociferei, enquanto lhe gritava na cara (com elegância, claro está)  a jura que aluna havia feito, garantindo que não havia estado naquele espaço comercial.
- Ai a mentirosa! – disse com uma expressão, na qual se notava muita sinceridade. E não sei se por isso, se pelo amor que é cego, perdoei-lhe e fui para a aula, que embalada pelo bem estar com que o perdão nos aconchega, me correu muito bem.
Isto dos processos irregulares de formação de palavras tem muito que se lhe diga e este ano não foi excepção. Lá comecei com a ida ao Shopping, onde comi uma pizza e tomei um capuccino, tendo depois entrado numa loja e comprado um abat-jour .
- O que é isto, moços? – perguntei, muito segura de que saberiam a resposta.
- Gastar dinheiro, pressora ! – respondeu logo a M.C.,preocupada com a minha economia doméstica. Parece ela que adivinha que anda pelas “ruas da amargura”.
Que sim, dizia eu, que era verdade, mas lá dei nome à coisa, referindo que eram empréstimos e que até havia palavras que nós já “aportuguesámos”, caso de dossiê, dizia.
- Esse é uma adopção!! – disse o P.C.
E eu avancei logo, para não lhe responder aquilo que me veio à cabeça.

 (Momento de recuo no tempo, vulgo analepse)
Na semana passada contei aos moços quem era o Pepe. Aqui vo-la apresento, para que possais entender o comentário do A.T.


 (Fim do momento de recuo no tempo)

Depois, foi a vez das onomatopeias. Que era uma forma de reproduzir os sons na escrita, dizia eu, e com receio de que os moços não entendessem, vá de dar exemplos. Vi uns olhitos confusos, e vá de reforçar os exemplos:
- Reparem, quando eu faço “toc, toc”, o que é?
- O espanhol sem braços! – respondeu o A.T., recordando-se da belíssima anedota que lhes contara uns dias antes e que se encontra no “momento de recuo no tempo”.
Depois disto, e já noutra turma, vá de pôr os moços a escrever... sentei-me no escritório e dizendo que cada par poderia vir ter comigo três vezes. Que sim, que tinham entendido.
O tempo foi passando, e o F.T. pôs o dedo no ar para pedir a palavra, que lhe foi dada e saiu assim:
- Oh pressora, quantas vidas é que o meu grupo tem?
Confesso que levei um bocadinho a perceber o que me queria realmente perguntar. Mas assim que me apercebi, decidi implementar essa terminologia, de forma que, a partir de agora, dou três vidas aos jovens, quando as gastarem é rezar-se-lhes pela alma.



Destilaria de coiratos e outras histórias

08 outubro 2018


O dia foi preenchido. Começo a notar alguma soltura nos pequenos, que não são os únicos a querer aparecer nas crónicas. É que também os colegas andam a fazer graçolas para ganhar o seu minuto de fama. A começar pela I. S., que trouxe um bolo típico de Portalegre, que era muito bom. Fala-se em comida e tudo em mim se inquieta. Comecei logo a elogiar a colega e a seu altruísmo, manifestado naquela partilha desinteressada de tão rico manjar. Lá pegou numa faquinha e vá de partir o bolinho. “Só um quadradinho pequenino”, disse eu, que de garganeira não tenho nada. E ela insistia em cortar um maior, e eu a insitir no mais pequeno. Assim que dou a primeira trinca e começo a mastigar, fez questão de me informar que o bolo era de Sábado. Ora hoje é Segunda-feira. Mentalmente cuspi-o todo e, enquanto a custo deglutia o pedaço que inserira na cavidade bocal, estendia a mão e oferecia o que restava ao colega P.C., que é outro que anda sempre a ver se petisca a coisa alheia. Falo de comida, naturalmente.
No intervalo seguinte, foi a colega S.R., que diz que vai criar a “Destilaria do coirato”. Pelo que percebi até já tem o espaço e tudo só falta a clientela anafadinha. Eu até gostava de a ajudar nesta ideia empreendedora, mas a elegância que enforma este corpinho não o permite.
Quando cheguei à aula, doiam-me os maxilares, não sei se das risadas se do bolo da colega I.S.
Ao entrar perguntei logo ao T. D. por que tinha faltado. A resposta não se fez esperar:
- Médico, perna, tendão, ruptura.
Como fiquei esclarecida, decidi passar à verificação do TPC., isto já na turma da B. K. , que disse que não o tinha feito porque tinha ido para Aljezur fazer surf, o que considerei uma razão de peso e prossegui, olhando como quem pergunta, para o Q. S., que me disse, num português escorreito:
- Tá ligado, mim sempre faz!
Eu fiquei muito satisfeita com ambas as coisas: o ter feito, mas sobretudo com a correcção do seu português, que não ficou por aqui, porque o jovem decidiu rematar a conversa com:
- Beleza, professora.
Retirando ali a vírgula e pondo a beleza a seguir a mim, fica “Professora beleza”. Foi isso que ouvi e que justifica o sorriso largo que lhe dei.
Depois de verificar e registar no Inovar os incumpridores, tarefa que desempenhei com todo o profissionalismo, vá de começar com o texto de opinião. Vá de dar um textozinho aos moços, vá de o ler com toda a expressividade. Depois deste, vá mais um que contradizia o primeiro. Ora o P. C. começou a sentir-se perdido e quis saber, afinal, qual era a opinião da autora, já que num defendia aquilo que criticava no outro. Para se esclarecer, dirigiu-se-me assim:
- Tão, mas oh pressora, o que é que a senhorinha da coisa da cena pensa? – isto acompanhado de uma expressão de genuína curiosidade.
Ora a “senhorinha da coisa” responde pelo nome de Antónia Mancha, a autora dos textos, ao que o Q. S., indignadíssimo, disse:
- Shiii, deu 30 anos mais p’ra professora!
Eu não respondi, porque o Q.S. reconheceu o quão injusto tinha sido o P.C.
Lá prossegui e, não sei a que propósito, dei graças a Deus por algo que eu própria fizera. Quem não se deixou enganar foi, novamente, o P. C., que corrigiu:
- Graças a Deus, não, à professora.
Ao que eu humildemente respondi:
- É quase a mesma coisa.
Senti o pasmo no silêncio dos petizes, que só foi interrompido por um cochichar lá para as bandas das últimas mesas: “oh, é a pressora que é Deus”. É assim que se criam os boatos, pensei, mas não o desfiz, é que isto da divindade assenta-me que nem uma luva.
Depois deste momento com alguma religiosidade, a M. E. decidiu dizer-me que lhe doía muito o ouvido, estive para lhe perguntar se queria que me calasse, mas como temi a resposta quem se calou fui eu e lá prosseguimos, ou melhor, eu tinha a intenção de prosseguir, os moços é que não estavam pelos ajustes, razão pela qual pus em marcha a estratégia altamente pedagógica da contagem decrescente, que é como quem diz, quando chegar a 1, pedagogicamente o aluno é estrategicamente colocado no exterior, sem que se lhe pergunte  “quereis ir para o exterior”, como fazia o saudoso colega L.P.
- Moços, vou entrar em contagem decrescente! – disse eu decidida.
- Então, pressora, vai à lua? – perguntou a M.F.  com um sorriso rasgado, mas de olhar no chão, o que a salvou de ir ver como estava o tempo fora do espaço da sala de aula.
Depois disto, e do respeito que impõe uma contagem decrescente bem feita, vá de escrever uns apontamentozinhos. Páginas depois, deu-se o seguinte diálogo:
- Há mais alguma coisa pa passar? – questionou o A.T.
- Posso avançar? – perguntei eu.
- Isso responde à tua pergunta? – perguntou a M.F. ao A.T.
Gostei da perspicácia.
Findo o período do apontamentozinho, foi momento de escrever. Que se juntassem em pares (de quatro,perguntaria a M.E. se estivesse na sala) que escrevessem um texto de opinião, instruções dadas, havia que clarificar como funcionava o escritório imaginário: a minha mesa é o escritório, onde cada grupo tem o direito de ir 3 vezes para solicitar apoio. O espaço é envidraçado e a porta é automática, mas o sensor é lento, pelo que, antes de entrarem, devem aguardar um pouco pela abertura das portas.
- Fui clara? – perguntei.
- Sim Dr.ª! – respondeu a M.F. 
Eu cá, como boa portuguesa, gostei logo do Dr.ª e por isso nem liguei ao seu sorriso descarado, enquanto procurava uma folha para começar a escrever. 
E assim vão os dias.

Cheira bem a coscuvilhice

04 outubro 2018

Estava na aula, aquilo tinha mesmo acabado de começar e eu só ouvi “… Português”, é claro que o meu interesse disparou de imediato e perguntei à M. E. o que é que ela tinha dito. Que nada, mas eu cá não sou trouxa e insisti, pensando já no plano B, caso ela se negasse a contar-me, mas ela, desbocada, reproduziu logo o diálogo que culminara com aquela palavra que me disparara o interesse.
Atão foi assim - dizia a M.E. - a J.M. disse que cheirava a bolor e a A. A. disse que não lhe cheirava a nada e eu disse que me cheirava a Português, tipo no sentido de nós estarmos a ter Português.
Apeteceu-me mandá-la calar, quando introduziu aquele “tipo”, como quem vem explicar o jogo de palavras que acabara de fazer, mas, em vez disso, sorri-lhe, pensando no espanto da sua expressão, quando descobrir que há outros verbos declarativos para além do dizer, mas isso são águas que ainda moverão moinhos.
Depois disto, não podia deixar de reparar na expressão compungida da T. B., mas como sou muito perspicaz, percebi logo o que se passava, é que o seu A. T. estava a faltar, parece que foi para Sevilha e ela, não sei se por saudade ou inveja, estava com aquela triste figura. É claro que a referência ao estrangeiro fez logo a M.E. ter uma grande ideia e disse logo que o que estava certo era fazer uma visita de estudo à Isla Mágica. Eu perguntei o que é que a minha disciplina tinha a ver com um parque de diversões, já preparada para uma resposta que me obrigaria a pô-la na rua, mas não, a M.E. surpreendeu:
Atão pressora íamos todos, depois quando estivéssemos na Montanha Russa, só falávamos Português.
É claro que pus o meu melhor ar de espanto e aproveitei para partilhar a minha surpresa por em 20 anos de aulas nunca me ter ocorrido essa ideia, enquanto pensava que Português se poderá falar numa Montanha Russa, surgindo-me todo um leque recheado do mais fino calão.
Por esta altura, vi uns dentes de imaculada brancura, enquadrados num sorriso largo, a espreitar à porta da sala. Era a colega I.O., aquela que sorri tanto que até irrita e que me deixou logo os nervos escangalhados. Sorri-lhe de volta, por educação e prossegui com notícias e reportagens e essas coisas de que se fala nas aulas de Português. Nisto passa a colega M.C. no corredor, atirando um “estou a ouvir a tua aula, estou a gostar”. Ela deve ter ido espalhar isso, porque não tardou nada, foi a colega R.B. quem apareceu. Esta é outra que sorri que se desunha e que me enerva até mais não, que eu cá gosto muito dos semblantes carregados, pela competência que se lhes cola à pele. É por isso que é muito raro alguém ouvir-me a voz e desconfio que ninguém sabe que também sorrio.
Eu bem que tentava dar a aula (que o sr. Ministro tenha lido esta frase), o problema é que me começaram a aparecer aos pares: eu divagava com a eloquência costumeira, eu movimentava-me com a elegância de todos conhecida, eu gesticulava e os meus gestos, não é para me gabar, mas roçavam a delicadeza de uma pluma que esvoaça com a brisa estival de um entardecer, eu fazia isso tudo e os moços, em vez observar-me com pasmo estampado no rosto, tinham o rosto  virado para a porta e sorriam muito. É claro que quis saber que coisa mos tirava assim. Era a colega I.O. e a colega R.B.. Tinham voltado e sorriam até mais não. Que queriam ouvir a minha aula. Que estava boa. Eu cá ia-me já a sair que lhe marcava uma faltazinha disciplinar que era uma graça, mas apercebi-me a tempo de que não podia, por isso fechei-lhes a porta na cara, com a finura que todos me reconhecem.
Lá consegui prosseguir, ainda a tempo de fazer uma pergunta a uma jovem. Não me recordo da pergunta, nem da jovem inquirida, só da resposta da M. C., que disse assim:
Pressora , já a enterrou.
Nisto ouviu-se o toque de saída, que sepultou na eternidade mais um  momento memorável desta arte de ensinar.
Mesmo à entrada do fim-de-semana e à saída da escola encontrei a D.ª F. que me perguntou se ainda estava chateada com ela. Eu até vinha esquecida de que estamos de “candeias às avessas”, mas aquele comentário fez-me reagir assim:
- Olhe, parece que ainda sinto uma magoazinha.
E segui o meu caminho rumo ao sol que se punha e ao feriado que desponta.
E assim vão os dias.

Subjetividade em cama de alface aromatizada com "coisinhas"

01 outubro 2018



Entrei na sala e lá estava ele. Com ela. Não a mesma, claro, que o moço tem coração que chegue para todas as moças. Desta vez, a eleita foi a colega M., a quem ele, em nome do cavalheirismo, cedeu a cadeira, mesmo nas minhas barbas. Depois, esgueirando-se e de olhar entornadíssimo que só visto, perguntava-me se lhe arranjava uma moedinha, que não tinha e precisava de tomar café. Que sim, disse logo eu, mas, desengane-se, caro leitor, não havia no meu gesto qualquer vislumbre de embevecimento amoroso. Antes pelo contrário, disse-lhe logo um "está aqui, mas toda a gente vai saber que me deves dinheiro". Eu disse aquilo na brincadeira, claro, não vou agora fazer alarido do dinheiro que o colega P.C. me deve.

A festa mais bonita que não chegou a existir

27 setembro 2018

Cheguei à escola e o colega P.C. disse-me logo que agora até tem medo de falar comigo, o que não é de espantar, este corpo atlético intimida , bem sei. Mas, ainda ssim, fiz-me de desentendida e perguntei a razão de tal receio, ao que respondeu que nunca sabe o que venho aqui escrever e que o melhor será falar de assuntos estritamente profissionais e vá de abordar o tema do casório. Eu calei-me, e deixei que ele próprio deixasse a nu o seu caráter e o amor que dizia ter por mim há duas crónicas atrás. A chegada da colega M.C. veio ajudar à festa e ela, que segundo disse até já tinha a fatiota comprada, foi muito clara na apreciação do caso e disse logo: 
- Não te cases! 
E eu concordei. É que parece que a nossa união era, para quele que seria meu noivo, um “assunto estritamente profissional”. 
Nas aulas, nada a registar. Os moços estão todos demasiado normais para o meu gosto, a ver se a coisa muda. Tenho esperança que algum sueste de aproxime os faça aparvalhar. Aparvalhar, mas com classe, coisa que nunca perco, aparvalhando muito. 
Ouvi também uma conversa entre os colegas P.C. e C.B.. O segundo é secretário do primeiro e queria saber que funções desempenhar naqueles 20 minutos que nós temos de dar ao Ministério pelas horas a mais que trabalhamos. O P.C. não se fez de rogado e disse que tinha de atender os EE, preencher aquela papelada que ninguém sabe para que serve, mas que todos entregamos dentro dos prazos, consultar e analisar os processos, tudo em 20 minutos. Enquanto isso, o C.B. sorria e depois foi-se embora. Ele há gente... 
Subi e fui comprar uma água, que ainda afogo as entranhas com este calor. Encontrei a T.B. que me disse que se falou de mim nas suas aulas de 10º ano, a propósito de El Quijote de la Mancha, tendo ela mantido a versão de 2015. Disse-me a que aluno o disse e eu disse-lhe que ele é rapaz para acreditar. Decorria a conversa e ouvi nas minhas costas “mas estás visivelmente mais magra” eu olhei logo, claro. Era a E.C. a dar um ar da sua graça e da sua ironiazinha. Também ela anda a lutar pela eternidade nestas linhas. Atirei-lhe com um olhar, mas esborrachei-o na parede, porque ela já ia a chinelar corredor fora. Como é Coordenadora, anda sempre de um lado para o outro a tratar daqueles papéis que ninguém sabe para que são. E assim foi o dia. 
E assim vão os dias.

Acaba o amor à pedrada

26 setembro 2018



De manhã começa o dia e às 8:10h, mais coisa,menos coisa já estava na escola, desnorteada, à procura dos meus pertences que não encontrava em parte alguma. A colega R. aproveitou para uma piadolas, que ignorei, em nome da boa educação que tenho.
Depois, no intervalo, começaram a chegar as felicitações. (Os leitores que não sabem do que falo, que leiam a crónicade ontem e ficarão a entender o motivo de tanto alvoroço). Lá encontrei a outra metade que comigo subirá ao altar, que ainda não sabia que havia tornado pública a nossa decisão e disse-me que ia ler assim que tivesse oportunidade. Encontrei-o depois, desanimado, e até me pareceu ver-lhe no rosto um vislumbre de desapontamento:
- Oh, mulher, então quase não escreveste nada, esperava muito mais! – dizia, enquanto já sorria sedutoramente à colega C.M., que lhe retribuía o mostrar de dentes. Fiquei logo com a pulga atrás da orelha, ainda para mais quando essa colega disse que quer ir ao casório. A ver se não fico no altar, enquanto estes fogem para viver alguma tórrida paixão surgida ali, no intervalo.
Fui para a aula. Enquanto os petizes trabalhavam, perguntei se alguém tinha marcadores fluorescentes que me emprestasse.
- Eu tenho, mas só de duas cores! – disse a M.
- Podes emprestar-me? – perguntei eu.
- Sim! – disse a M., sorridente.
Lá me levantei para os ir buscar, enquanto comentava, queixosa:
- Tem marcadores, mas levantar o rabiosque da cadeira para mos vir trazer é que não. Tem de ser uma pobre senhora de trinta e doze anos a fazer tudo.
Os moços sorriram. Um silêncio breve. E depois isto:
- Sabe pressora, a gente ontem ‘teve a querer fazer isso com a nossa idade, mas não dá! – disse a E., com um largo sorriso, que foi acompanhado pelo risinho geral, como quem diz “tens a mania que és jovem”.
Eu sorri-me, mas disse logo que a conversa acabava ali. E acabou, que eles sabem que posso ser tão perigosa quanto imprevisível.
Novo intervalo, nova aula e eu disse assim:
- O powerpoint está mesmo giro, não está?
Que sim, diziam os moços. O B. ainda quis ter uma opinião doferente, mas cortei-lhe logo as perninhas, que eu cá sou muito democrárica, mas até certo ponto.
- Então, e digam-me lá, já viram powerpoints mais bonitos que os meus?
Após uma hesitação, que se desvaneceu assim que arregalei os olhos. O B., esse, nem levantou os dele.
Não satisfeita com o silêncio, voltei à carga:
- Então e há mais professores a mostrar-vos powerpoints?
Que sim, que havia. E eu só pensava “raios partam os moços que não se descosem”.
- Então e que professores é que vos têm trazido powerpoints, digam-me lá... – desafiei, já quase em desespero.
- Sim, pressor de C.N.!
- Ah, sim?! E que tal são os powerpoints do professor P? Mais bonitos não são, de certeza. – comentei segura.
-  Oh, são só pedras! – disse o A.
- A sério? – perguntei, fingindo incredulidade.
- É que é mesmo, disse a A.
Eu sorri-me, mas por dentro gargalhava.
De preocupação.
É que já eram famosos pelas bactérias. Agora são pedras.
Eu que sou pelo profissionalismo pedagógico, sugiro uma averiguação isenta àquilo que este colega (e quem sabe quantos mais) anda a fazer nas aulas.
Tenho cá para mim que já não preciso preocupar-me com a ementa do copo de água...

Há casório à vista

25 setembro 2018



Isto há dias mais calmos. Hoje foi um deles. A nível de moços, porque hoje foi um dia especial. 
A aula correu dentro da normalidade, entre um “oh pressora, vai muito depressa” e um  “despacha-te a escrever” e do intervalo, apenas a registar um “oh pressora” em alta grita. Era o P. e outro jovem, cuja cara tenho em mente, mas cujo nome ainda se me escapa. O P. só me dizia “Ai pressora, ontem já apareci!” (sim, o jovem P. é o que pugna bravamente pela imortalidade nestas singelas linhas de prosa) e o outro jovem, sorridente, mas visivelmente desapontado, informava-me de que não o tinha referido na crónica de ontem e havia na sua expressão uma clara reprovação por não reconhecer o mérito do seu esforço.
Antes do atendimento aos Encarregados de Educação, aproveitei para dizer à colega P.G. como a sua elegância chega a ser deselegante para os mais anafadinhos. 
Após receber os pais avistei a colega I., sempre tão sorridente que até enerva e disse-lhe assim:
-Oh I., sabes uma coisa?
- Diz lá! – e sorria com aquela dentição perfeita que chega a ser deselegante para os que têm de usar a sua protesesita dentária.
- Estou a segundos de mandar a minha dieta ao ar – disse eu, a meter-me com ela, que dieta é coisa de que não preciso, facto que se confirma com a resposta, sob a forma de pergunta, que a colega I. me devolveu:
- Estás de dieta? - o ar era de incredulidade, digo eu. 
- Estou, não é que precise, eu sei, mas estou.
A I. continuava a sorrir e tive vontade de mandar ao ar aquele sorriso, pois em algum momento foi capaz de dizer um "estás bem assim", "dieta para quê?". É muito sorridente a colega I., mas a mim não me engana.
Depois, a colega S. entrou e vinha a comer bolachas. 
Eu tinha fome. 
Aproximei-me muito, muito das bolachas que trazia e comentei, quase em cima do delicioso alimento que estava prestes a ingerir:
- São tão boas essas bolachas e eu tenho tanta fome!  - a minha esperança era que a colega se comovesse. Nada. Bem tentei que alguma gotinha da minha saliva aterrasse no cobiçado pitéu. Se aterrou, e eu creio que sim, não surtiu qualquer efeito. A colega S. arregalou muitos os olhinhos e, de mãozinha no peito, dizia que só tinha aquela. Houve um momento em que parecia mesmo que ma ia dar, qual quê, comeu-a. Sem remorsos e depois disse que tinha de ir para a aula, deixando-me a babar de fome e incrédula com tamanha frieza
A seguir foi a colega I.S., mulher de grelhas excel e muitos números. Chamou-me para ver um naco de prosa, daquela escorreita, que diz muita coisa. Que estava boa, disse eu, mas comecei a sentir uma pontada no ventre. É que quando vejo muitos números e prosa escorreita, o intestino dá-me sinal. Aliás, há muito que não necessito de qualquer laxante. Quando a natureza não faz o que tem a fazer, abro logo umas grelhazinhas e é um alívio. Alívio que dispensa descrição, pois todos, em algum momento, já o sentimos.
E onde está esse dia especial, apregoado logo no início da cronicazinha. Pois cá vai a revelação:
- Ai, tenho de ir para a outra escola. Eu, contigo ficava aqui a tarde toda. Temos de nos casar e mesmo assim, 24 horas contigo é pouco. – disse um colega, cujo anonimato vou preservar, para que não venha o divórcio antes da própria boda.
- A gente casa-se, sim. – disse eu, já a pensar na ementa saudável que terei de mandar preparar para o copo d’água.
E assim vão os dias.

Amazona do asfalto ou a arte da a omnipresença

21 setembro 2018


Cada vez gosto mais do que faço, muito por culpa do que o que faço me obriga a fazer: entro às 13:30, saio da primeira aula às 14:15h e entro na segunda às ... 14:15h, sendo que entre uma sala e outra há uns bons quilómetros de permeio. “Que hipérbole!”, já vos ouço dizer. Muito embora aprecie a utilização (ainda que errada) desse recurso expressivo, não posso apreciar a apreciação que fazem dos passos que tenho de dar, pois sou eu que sinto escangalhar-se-me tudo neste corpo, que ainda que perfeiteinho, não vai para novo. Quando entrei na sala, grossas bagas de suor escorriam-me por estas já quase mirradas maçãs-do-rosto e, dos membros inferiores, só sentia as borregas nos pés de tanto caminho feito. E ainda estava a meio do calvário que me esperava.

Parêntesis vocabular
Antes que me imaginem, destemida e com  os ossos a ranger,  a caminhar pelos pátios da escola com duas borregas presas aos pés, saibam que borrega(s), nesse meu país distante que é o Alentejo profundo, são bolhas nos pés. E como somos uma aldeia global, as terras além do Tejo já se fazem ouvir de outra forma e devem ter gritado tanto, que o próprio Priberam já contempla esta definição.
Fim do parêntesis vocabular

Comecei a aula e, ante a iminência de marcar uma falta de material, recorri ao Plano B e ofereci um lápis ao F., não sem antes lhe dizer que não sabia de quem era, que provavelmente o teria roubado a algum aluno no ano anterior, ao que o D., perspicaz, concluiu: “Então a professora rouba!”. Ele não devia saber qual é o feminino de ladrão, por isso improvisou e pelo improviso, em vez de me ofender, confirmei, adiantando que é mais forte do que eu, que não me consigo controlar. Discretamente, alguns jovens começaram a proteger os seus pertences. Gosto de impor o meu respeitozinho.
Montes e vales percorridos, qual amazona destemida, cheguei à outra sala. Estavam todos ansiosos, um até me disse “Está 3 minutos atrasada”. Deu-me vontade de lhe bater, mas ao pôr-me no lugar do petiz,  senti-lhe a tristeza por já ter perdido esses três minutos de uma aula de excelência e até lhe sorri. Pensei também fazer destas corridas um desafio, a ver se melhoro o tempo que faço entre uma sala e outra, que é como quem diz a ver se encurto a viagem até ao caixão.
Na aula, o P. disse que era insuportável, eu concordei, até porque gosto de eufemismos. Disse também, o Pedro, que 2ª feira vai “fazer qualquer coisa para ir para lá”, o adverbiozinho refere-se aqui ao blogue, às crónicas. Quer a imortalidade, o jovem!
Depois disto, esgotada, fui ter com outros petizes. Estes, até para respirarem precisam da minha ajuda...dá-me cá umas ideias... 90 minutos depois esperavam-me os últimos. Eu, já esfrangalhadinha, só me ocorreu dizer-lhes: “Vamos todos fingir que estamos entusiasmadíssimos, que são 8:20 da manhã e esta é a nossa primeira aula” e lá levámos a coisa, ansiosos pelo intervalo das 10h.
E assim vão os dias.

Acudam a gente que a gente não aguenta

20 setembro 2018


Foi calmo o dia. Será deste calor que só com a interveção divina se pode aguentar. Por isso, tive aulas muito religiosas. Uma petiz que dizia que não sabia as orações, disse-me assim:
- Oh pressora, eu não sei as orações!
Aqui entre nós, que ninguém nos lê, a óbvia resposta não se fez esperar e  aventei-lhe logo à cara com:
- Oh minha menina, toda a gente sabe um Pai  Nosso e uma Avé Mariazita, até eu! Não seja mas é herege e faça!
Ainda ouvi “Pai Nosso que estais no céu...”, mas pus um olhar do demo e a coisa ficou por ali. E o meu olhar também, pois ouviu isto: “ Mó bonitinho esse texto da avozinha”. Incrédula, olhei para o jovem e perguntei-lhe o que tinha dito, não podia ser verdade! E não é que me respondeu:
- Mó bonitinho esse texto da avozinha, professora!
Achei bonito o momento, mas quis parecer-me que ao dizê-lo, o discente não fez a pausazinha do vocativozito, o que poderá querer dizer que achou que a avozinha do conto era professora e com isso e um olhar entornadíssimo dizer que eu sou uma professora com ar de avozinha. Este é um assunto a que terei de voltar na próxima aula, que eu gosto de tudo muito bem esclarecido.
A aula lá terminou, e porque o calor é muito e só Deus para nos acudir, lá me despedi com um “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe” e, claro, ouviu-se um “Graças a Deus” estampado num rosto descarado e sorridente, mas cheio de uma fervorosa fé.
Mesmo a encerrar o dia, chegou a reunião com os pais. Disse-lhes que ainda ando a morrer de amores pelos petizes, mas que temo que a rotina desgaste a relação. A determinada altura uma senhora, que havia entrado, após ter-me apresentado, perguntou-me se eu era professora de Matemática, ao que pedi que não me ofendesse, isto, claro, sem querer ferir susceptibilidades e para terminar apagaram-se as luzes, estava na hora da despedida. Ainda ficámos um pouco mais e já pouco se via, por isso, assegurei aos pais que, na próxima reunião, trarei uma vela, até porque eu gosto de criar bom ambiente.
E assim vão os dias.

O teatro, os meus ténis e o W.

08 fevereiro 2017
Porque 5ª feira é dia de ida ao teatro, acontecimento que se reveste da sua pompa, afinal é uma espécie de Portugal Fashion, mas em ponto grande, já que a passerelle começa na escola e só termina largos quilómetros depois, no CCL, percurso este feito em passo de corrida. Este aspecto, há que assumi-lo, não estamos habituados a vê-lo nos desfiles, mas faz falta, já que traz todo um dinamismo corporal e vocal, que torna o espectáculo num momento imperdível, e, posso, para comprovar o que digo, deixar alguns registos de outros desfiles que já fiz:
“ ’Bora,’ bora, temos de lá estar às 15h!” ou “Fogo, pressora, ‘tou cansado(a)!” ou “Pressora, podíamos ir todos comer gelados!” ou “Quem é que manda aqui? Sou eu! Então não quero ver ninguém à minha frente!”
Tudo isto observado por um público que oscila entre o pasmado e o assustado. O susto, normalmente, vem do meu tom de voz, quando algum pupilo me tenta passar à frente, alegando mais energia, em virtude da juventude que, na sua perspectiva, me falta.
Prosseguindo, desta vez, ficamo-nos por cá, no entanto, para a próxima, iremos ao CCB, sim, à capital. Mas, para isso, há que treinar o passo e a perna, para que não nos chamem provincianos, quando, desde Lagos chegarmos à magna urbe, após  termos calcorreado os caminhos de Portugal.
Tanta conversa para dizer que calcei uns ténis, para habituar o pé e, no dia do grande evento, estar preparada. Confortáveis, de qualidade inegável, giríssimos, e assim, toda aperaltada do tornozelo para baixo, lá fui dar aulas, aos meus jovens que, expectantes, ansiavam pela minha ausência.
Entrei na sala, comecei a aula, prossegui com a aula e … nada.
- Moços, não sei se já repararam nos meus ténis novos… - disse eu, disfarçando a quase humilhação que sentia.
Gostei de ver 19 pares de olhos a inclinarem a sua curiosidade na direcção dos meus pés. Eis que me apercebo da falta de dois olhinhos, que procurei com os meus e que vou encontrar, perdidos, a olhar vagamente para o quadro interactivo. Eram os do P., que perguntava:
- Onde é que tem os ténis, pressora?
- Na cabeça, querido P. – disse logo eu.

Mas o P. é inteligente e viu logo que eu estava a brincar, ainda que me tenha olhado para a cabeça, sorrindo-me. Mas perdido.

TAMPAS, ÓCULOS & TROLLEYS

31 janeiro 2017


A pedido de muita gente, que é como quem diz, um petiz, cá vai uma cronicazinha. Pensarão, “tanta gente a pedir o regresso das crónicas, realmente!” e eu notarei a ironia nesse pensamento, caros leitores, por isso adianto já que não foi um petiz qualquer que ma pediu, foi um daqueles que vale por muitos. E não, não venham já aqui deixar comentários que estou a fazer insinuações relativas à dimensão corporal do jovem. Acaba-se já aqui a conversa, até porque ninguém me pediu coisa alguma!
Depois desta graciosa introdução, há que dizer que a minha vida na escola está um marasmo.
À parte um ou outro apontamento insignificante, nada aconteceu digno de um registo para a posteridade.
Bem, o W. safou-se naquela aula em que o F., o jovem mais calmo da turma, distraidamente, e para grande atrapalhação sua, projectou inadvertidamente a tampa da caneta. Ora o W. Não esteve com meias medidas e disse logo:
- Olha, até lhe saltou a tampa! – comentário acompanhado por um olhar entre o vivaço e o “ai jesus, que a pressora me põe lá fora”.
A pressora sou eu e, naturalmente séria, peguei logo num papel e, perante o ar assustado do pequeno, que se achou na iminência de uma falta de natureza disciplinar, com respectiva participação, devidamente registada no Inovar, escrevi “ crónica: saltar a tampa “ e, serenamente, prossegui com a aula, justificando, assim, o chorudo vencimento que aufiro a cada dia 23.
Como é do domínio público, perdi os óculos. Já havia feito algumas tentativas, mas desta vez foi mesmo a sério. Lá tive de recorrer a um modelo vintage que tinha aqui em casa. Ora, a mudança de visual gerou uma leve onda de sorrisos, que me levou ao comentário “não estão a resistir a tamanha beleza, não é?” e que me obrigou a medidas drásticas, que não gosto de tomar, por não fazerem parte da minha natureza, mas que tinham de ser tomadas, pois não gosto de distracções, ainda que o motivo seja o meu inegável bem parecer. Então, disse logo:
- Oh C., dá-me cá os teus óculos!
A C. deu-mos de imediato, pois conhece a minha imprevisibilidade. E além disso, já mos havia emprestado aquando de outras vezes que os meus desapareceram. Pronto, lá estão novamente os leitores a fazer juízos depreciativos e precipitados, “pobre jovem, coitadinha, praticamente ceguinha”. Desde já, aborrecem-me esses diminutivos, depois, a jovem tem miopia, tal como eu e tem a mesma graduação que a minha, mas a jovem não está a ser paga pelo seu desempenho, logo, para ceguinha, antes ela que eu, que tenho responsabilidades e um chorudo vencimento a justificar. Estamos entendidos?
A C. lá fechava ligeiramente os olhos, parecia estar a querer focar o meu rosto, o que é compreensível, pelas razões estéticas anteriormente abordadas, eu é que estava com um grande desconforto nas orelhas, pois as hastes eram curtas. Mas à parte isso, tudo correu lindamente. É claro que, no fim da aula, lhe pedi que fosse à óptica substituir as hastes por umas mais longas, “ah, porque assim vão ficar-me largos”, dizia a pequena, ao que tive lhe fazer entender que o importante era que me ficassem bons a mim. Pareceu compreender, o que não quer dizer que ponha tal entendimento em prática. É pena.
Ontem, enquanto me dirigia para a sala, apercebo-me de um jovem que, de costas e em visível desequilíbrio, vinha na minha direcção. Só tive tempo de pensar “será uma dança destas da moda?” e o bailarino em desequilíbrio faz-me uma razia e enrola-se com Mancha mobile, caindo, mas levantando-se num ápice e, com um ar muito atrapalhado:
- Aí, oh pressora, desculpe lá!
Ora eu cá sou justa e o jovem não me havia feito mal algum, então disse-lhe:
- Não é a mim que tens de pedir desculpas, é ao trolley!
Mas disse-o com uma expressão solene. Ao que o jovem, de imediato, e com visível arrependimento, virou-se para o Mancha mobile e disse:
-Aí, desculpe lá!
Eu estava a brincar. Mas ele não.

FURADORES E BACTÉRIAS

18 outubro 2016


Mal entrei, a M.E., que dias antes, também no início da aula, se pusera, muito séria, à minha frente, querendo saber se estaria com febre, situação que cientificamente para mim não tem segredos e que avaliei com uma mão na testa da pequena e uma frase toda ela revestida de conhecimento “ Nã tens fébre nada, vais masé sentar-te!” , frase esta, que lhe deu uma segurança tal, que a pequena, se estava adoentada, lhe passou a enfermidade de imediato. Ora dizia, mal entrei, a M.E., com o seu ar mais dócil e ingénuo, veio ter comigo para me colocar esta pergunta:
- Professora (sim, a dicção já melhorou), tem aquela coisa que faz furos em folhas de papel? – o ar era sério e dócil e nas mãos tinhas umas quantas folhas…
Olhei-a com um certo pasmo, enquanto continha a risada que não podia soltar, e respondi, pedagogicamente, claro está, que o objecto que demandava dava pelo nome de furador e que, embora normalmente fosse utilizado para furar folhas de papel, seguramente também furaria a folha de uma oliveira, e quem dizia oliveira, dizia castanheiro, enfim, fazia furos.
Pareceu-me esclarecida, tendo soltado um
- Oh, pressora! – note-se que, dado o nervosismo, a dicção se lhe alterou.
Ora mal sabia eu que o melhor estava para chegar.
À tarde, mal pousei o Mancha Mobile, vem logo o L. B., muito despachado e com um largo sorriso:
- Oh pressora, já falou com o pressor de Ciências?
- O professor P.C.? Sim, falei de manhã, porquê? – perguntei, curiosa e achar que aquilo trazia água no bico.
E o L.B., desbocado, toca de me elucidar:
- O pressor tava a passar um powerpoint e perguntou-nos se não tínhamos nada para dizer…
- Sim… - respondi a tentar perceber onde aquilo ia dar.
Quem continuou foi a C. R., que originou uma grande contrariedade ao L.B..
- Sim, pressora e a gente perguntou ao pressor se ele queria que a gente dissesse que o powerpoint estava bonito, mas a gente disse que só os da pressora é que estão bonitos!
E não se pense que a C.R. disse isto por dizer, pois a grande maioria da turma abanava afirmativamente com a cabeça. É certo que se lhe notava uma espécie de ironiazinha, que eu ignorei por não me interessar.
- Muito bem, jovens alunos. Estiveram muito bem! – disse eu, francamente agradada, por ver tamanha espontaneidade e reconhecimento em todo o investimento que coloco nas minhas apresentações. Aliás, que lhes caia o céu em cima das cabeças, se alguma vez os treinei para tal resposta!
- Ah, e pressora – a voz é novamente do L.B. – o pressor P.C. disse para dizermos à pressora que os powerpoints deles são mais bonitos.
Irritei-me.
Irritei-me, naturalmente que sim. E tomei uma medida drástica. Eu, que não sou de “leva e traz”, disse logo aos moços:
- Então digam lá ao professor de Ciências que a professora de Português o desafia para um concurso de powerpoints. Mas uma coisa séria, com júri e tudo.
É então que a C.R. profere:
- Os da pressora são melhores. Os do pressor é só bactérias!

Duvido que, perante este facto, o professor de Ciências se atreva a aceitar o desafio que lhe propus.

A rota dos supermercados e cenas fixes

28 setembro 2016

No 8º ano há uma espécie de repetição de conteúdos de 7º, que têm de ser abordados e eu , como sabem, abordo tudo de fio a pavio. Era o que faltava deixar conteúdos por abordar!
Bom, lá fui eu para a sala, mas não fui sozinha, que hoje é 4ª feira, logo dia de parceria com o meu distinto colega J.S.. 
Liguei o computador, o projector, projectei o "powerpoint" e os pequenos queixaram-se da cor da letra, que se via mal, que se estavam a baralhar, que praticamente já estavam a ficar cegos. Eu cá faço tudo pelo bem estar dos meus alunos, vai daí, congelei a imagm e, enquanto escreviam uma resposta, fui alterando a cor das restantes, para que as queixas acabassem. Ao fazer isto, como sabem, no ecrã aparece "congelamento".
Até aqui, nada de novo. Perguntar-se-ão, por que razão estou então a escrever esta crónica se não tenho nada de novo para vos contar. Ora lá era isso possível! Tenho, pois, e muito!
Este calor de Setembro está a acabar com qualquer pessoa, vai daí, o colega J.S., que não só zela pelo bem estar dos alunos, como de todas as pessoas em geral, vendo o meu afogueamento, perguntou, de forma séria e preocupada:
- Antónia, queres que ligue o ar condicionado?
- Ai, sim, J., por favor! - respondi com o mesmo ar grave e sóbrio.
E eis que se levanta o burburinho, que ganha voz pela M.
- Ah - a expressão era de surpresa genuína - a sala tem ar condicionado?
Eu nem tive tempo para elaborar uma resposta, pois o D., disse logo:
- Não estás ali a ver "congelamento"?
Eu que não sou pessoa de riso fácil, gargalhei suavemente, imitada, de imediato, pelo colega J.S. e pelos jovens que entenderam a piada do D.. É claro que há sempre um ou outro que pergunta "por que é que estão a rir? Não percebo!". Depois de explicada a piada, como não querem dar parte fraca, lá comentam com um certo arzinho de desdém: "Pff, não tem graça!"

Voltando tudo à normalidade, já o projector desligado e os moços todos com uma ficha de trabalho sobre a notícia, vá de fazer perguntas:
- Ora bem, jovens, já vimos o antetítulo, o título e agora, como se chama este primeiro parágrafo?? - questionei eu, segura das correção das respostas, pois é uma matéria do ano anterior.
- É lidl! - disse o L., com firmeza e confiança.
- Pois, e o resto da notícia chama-se Aldi - disse eu, que sou cliente de ambas as superfícies e considero que uma não fica atrás da outra! 
Lá houve uns risinhos, mas eu cá pus logo ordem naquilo e, de forma bem audível, quis acabar ali com as piadolas:
- Jovens, vamos lá ver, o primeiro parágrafo é o "lead", e vai até onde?
- Até ao Continente. - o tom foi discreto, mas do mais malandro que possam imaginar. A voz, essa, foi do G., de olhos sorridentes.
Uma vez mais, abafei a gargalhada, mas sorri-lhe com o coração cheio. É claro que não o repreendi, desde logo, porque foi uma cartada muito bem jogada, depois porque o G.não tem sorrido nos últimos dias e ele precisa. Muito.

Já quase no fim da aula, o L. disse assim:
- A prof. é daquelas que faz cenas fixes na centésima lição?
- Eu não costumo , mas só por teres dito centésima, vou fazer!
E pronto, lá ficou agendada uma "cena fixe". Seja lá isso o que for...

O pressor P. e os paradoxos

22 setembro 2016

A aula poderia ter sido muito diferente: já me estou a ver, toda empertigada, a perguntar aos petizes se sabiam o que era aquele palavrão, eles, inicialmente pouco interessados, eu a empertigar-me mais, eles a ficarem curiosos, eu, que já teria empertigado tudo o que havia para empertigar, colocaria uma certa expressão de erudição, eles, pasmados com a sapiência que sabiam que iria sair mal abrisse a boca, eu a percebê-los "no ponto", aí  atiraria qualquer coisa como trata-se de uma impossibilidade blá blá bá... e remato com blá blá blá, pois isso teria sido a minha aula. Mas não foi. 
O que aconteceu foi isto:
- Então e que palavra é que foi aqui empregue totalmente fora de contexto e que nos mostra que a personagem não dominava a língua portuguesa?
- Paradoxo, pressora! - respondeu logo o D., que é rapaz muito despachado.
Resposta após a qual entrei eu:
- E, sabeis, jovens, o que é um paradoxo? - já a começar a empertigar-me.
- Oh, é uma realidade impossível - disseram dois ou três, com um ar de franca naturalidade, que se  me recolheu logo o empertigamento.
Quis, de imediato, saber quem ousara ensinar-lhes uma tal coisa:
- Mas quem é que vos anda a ensinar isso?
- O pressor de Físico-Química! - novamente em coro.
- O professor de Físico-Química, quem é que é o professor? - perguntei, já a antecipar a resposta.
- O pressor P. - responderam.
- Pois - disse eu.
 E assim acabou aquilo que não chegou a ser, mas que, se fosse, teria sido coisa digna de registo nos anais do ensino do Português.

Nunca me enganou esse pressor P. , com o seu ar de Gedeão do séc. XXI. É claro que isto foi um pensamento que não partilhei com os moços, não fossem eles pensar que estava a chamar nomes feios ao professor.

#diasquemefazemriregostardoquefaço

12 abril 2016
Atravessei a ponte e, mal entrei no bloco, foi isto:
"Pressora, pressora, coma lá! - eram umas alunas, que, num grito de desapego, me estendiam uma lancheira cheia de gomas, pastilhas e toda uma parafernália de coisas doces.
Parei de imediato e disse-lhes, ante o espanto da colega L.R., que me ladeava pela esquerda:
- Acho de muito mau tom que, sabendo que eu a fazer dieta, me venham oferecer coisas destas! 
- Mas vêm de França, pressora! - insistiram.
- Ah, se vêm do estrangeiro, é outra coisa! - respondi, que eu cá sou muito pelas boas relações internacionais - enquanto ia escolhendo o que mais me agradava. Mas não estava sozinha, a colega L.R. também aprecia a multiculturalidade e já estava também a subtrair pastilhas,  para gáudio das jovens alunas. 
Feito o corredor, essa travessia hercúlea, lá comecei a aula, da qual faz parte o A. M., dono de uma criatividade desmedida, só suplantada pela forma peculiar com que organiza a sua mesa de trabalho. Vai daí, a cada aula, lá vou eu, logo no início, simplificar-lhe tal tarefa. Hoje, porém, não o fiz. Ia já  num desembaraço de fazer inveja, quando me apercebi de que me tinha esquecido de dar um jeitinho à dita mesa.
- Oh, A., vamos lá arrumar a casa, que não gosto de desarrumação! Para isso já me basta o estado em que a minha às vezes anda...
Ouviu-se, então, do fundo da sala:
- Hashtag aspirador! - era o D.G., com o sorriso matreiro de quem sabia que me ia desarmar. 
Não pude deixar de reconhecer a pertinência do comentário, razão pela qual esbocei uma expressiva gargalhada, imediatamente seguida de um "Vamos lá continuar, que eu estou aqui é para trabalhar", que eu cá sou muito competente e não gosto nada de sorrir para os alunos, muito menos de esboçar gargalhadas.

A tarde foi calma, orações relativas, que é pitéu muito apreciado e informações sobre as apresentações orais que têm de fazer. A este propósito, fiz-lhes um brevíssimo apanhado sobre o conto que servirá de ponto de partida, que valeu o sonoro comentário do jovem A.
- Shi, já tou cheio de vontade de ler o conto, pressora! - exclamou, de olhar muito vivo.
Chego, portanto, à conclusão de que sou mesmo muito boa a fazer brevíssimos apanhados. 
Após o toque de saída, a M. e a N. vieram ter comigo para me mostrarem os seus telemóveis novos: uma folha dobrada, na qual desenharam um ecrã e um teclado e com a qual se comunicam. Ouçamo-las:
- Pressora, a gente finge que é bué bué burras e que 'tamos a falar uma com a outra. 
Pus o meu ar mais sério, porque isto de contrariar os moços pode correr mal para o nosso lado, peguei no Mancha Mobile e saí da escola, em busca de alguma sanidade.
Ainda não a encontrei.

LIÇÃO DE LITERATURA: IRONIA E HIPÉRBOLE

26 novembro 2015


Hoje dei por mim a observar os meus alunos a trabalhar. Lá estavam, com um ar que parecia de concentração. Um ou outro lá me chamava para esclarecer alguma dúvida, e pouco mais... vai daí, senti que estava na hora de atirar ao ar uma ou outra palavrinha e saiu-me um breve comentário:
- Muito se trabalha aqui!
- Isso é ironia, pressora!, respondeu o J., que agora parece andar ao desafio com os colegas a ver quem sabe mais recursos estilísticos.
- Bom, até nem estava a ser irónica... - disse-lhe.
Continuaram, e eu também:
- Ponham os olhos no D. E., o exemplo de um aluno concentrado e trabalhador! 
A risada lá surgiu e que sim, que neste caso eu estava mesmo a ser irónica, que não havia engano. 
- Claro que se a pressora dissesse isso em relação a mim, não seria ironia. - disse-me o D., com um largo sorriso manhoso.
- Pois não, seria uma hipérbole! - respondi-lhe, não contendo uma sonora gargalhada.
- A gargalhada da pressora tem mais piada do que as piadas que diz! - palavras da M.E., que me caíram como um estalo.
- Ya! - concordaram os restantes.
Percebi que tenho de voltar a falar na hipérbole, a ver se percebem as minhas graçolas.


DESAMORES, FINADOS E BURROS

23 novembro 2015


Hoje falou-se de eufemismos. E vá de tentar que os moços descobrissem, e vá de dar uma ajuda, e vá de insistir, até que, o G., muito despachado, como só ele sabe ser, se saiu com esta pequena pérola:
- Oh pressora, isso do eufemismo é o mesmo que, tipo, eu andar com uma rapariga e querer acabar com ela e em vez de lhe dizer “ - Não quero saber de ti para nada…”, dizer , tipo, “Ah, eu não te mereço, tu não tens culpa nenhuma, mereces alguém melhor do que eu…”
- Isso! Isso mesmo, G.! – respondi eu, satisfeitíssima por o pequeno ter dado uma demonstração clara de ter entendido tudo muito bem.
Ora, a A. não se quis ficar atrás, e vá de dar também provas de toda a compreensão que se abateu sobre ela:
- Pressora,  – dizia-me – é assim, tipo… a minha tia ‘tava… quer dizer, a minha avó morreu, não é?
- Não sei… -respondi entre o lamentar o desaparecimento da senhora e o tentar perceber onde estava a jovem A. a tentar chegar.
- Sim, pressora, morreu! Mas, tipo¸o meu pai quando chegou a casa disse à minha mãe, em vez de “ela morreu”, disse tipo “ A tua mãe finou-se”! – esclareceu a A., terminando com uma estrondosa gargalhada, que os outros pequenos iam começar a acompanhar, mas que estancaram, depois de se aperceberem de que eu não me estava a rir.
- Certo, A., claramente entendeste o que é um eufemismo. – disse-lhe. Gostava de ter comentado que não entendi a referência à tia, mas achei que seria uma longa conversa, que exigiria um tempo de que não dispunha.
Ainda na mesma aula, a determinada altura, percebi que não me estava a fazer entender… aliás, o F. até pediu:
- Poderia ser mais explícita, pressora?
Eu queria que chegassem à ideia de juventude, vai daí, saiu-me uma questão inocente:
- Reparem, eu tenho 39 anos, vocês têm 12, então, em relação a mim, vocês são o quê??
- Burros, pressora! – foi a resposta.
Importa dizer que veio em coro.

São uns queridos, os mocinhos…

DE TUDO UM POUCO, A PEDIDO DA D.G.

20 novembro 2015


Já vou com uns dias de atraso, bem sei, e a minha colega de appartement bem mo fez lembrar hoje.
O diálogo, à semelhança do que acontece diariamente com várias pessoas, decorreu com toda a normalidade. Possível. Com toda a normalidade possível, pois quando se trata de conversar com certas e determinadas pessoas que eu cá sei, e que são muitas, não vá já alguma começar com “De certeza que não está a falar de mim…”, nunca se pode almejar um alto nível de normalidade.
O intervalo era o das 10h. A colega D. por ali cirandava a dar dedos de conversa, eis que se aproximou e se encostou ao balcão lá da sala de professores, que neste intervalo faz de taverna, mas daquelas chiques, não se pense que anda ali gente a cuspir cascas de tremoços para o chão. Nada disso. Ora a D. chegou, e eu, simpática, como sempre, não tenho culpa deste dom que nosso senhor me deu, perguntei, como quem espera uma resposta afirmativa:
- Olá, D., tá tude bém?
O sorriso foi largo e a resposta foi, perdoem-lhe a gritaria:
- NÃO!  - respondeu,
- Melhér, o que tens tu?
- Por que é que não tens escrito? Saio da escola à noite (a colega D. trabalha muito), vou à varanda fumar um cigarrinho, ligo o Face, vá de procurar e… nada!
- Eu não tenho tido tempo…
- Achas que isso é razão para não escreveres? E eu??
Levei a tarde toda a tentar encontrar um bocadinho para escrever, p’ra ver se a mulher se cala. E cá estou.
A semana decorreu calmamente.
Tenho um trolley, chama-se “Mancha mobile”, ou “Mancha móvel”, dependendo de quem o chama. É bonito e faz furor. Tanto, que hoje de manhã ao percorrer o corredor, um jovem aluno deu-lhe um pequeno toque, virei-me de imediato e a criança, pálida, desfez-se em desculpas. Gostei.
Além disso, sempre que entro na sala, a turma que o baptizou faz questão de me cumprimentar. A mim e a ele. É mais ou menos isto:
- Olá pressora! Olá Mancha mobile!
Atravessar a ponte começa a ser uma aventura para os peões, tal a quantidade de carrinhos destes que andam a rolar pela escola. E mais virão, até porque o colega J.D. foi ontem avistado a fazer uma demonstração das potencialidades do seu trolley a vários outros colegas, que estavam estarrecidos. Parecia aquilo uma reunião da Tupperware. Coisa bonita!
A D.ª F. garantiu-me que já falou com um sr. Engenheiro no sentido de criar uma rampa ao lado das escadas, para que possamos subir para a sala, sem ter de recorrer ao elevador, que dá um certo aspecto de sedentarismo, coisa de que nós, possuidores de trolleys, não somos praticantes.
O V. é já o primeiro elemento júnior do TecnoRodas, Clube de Trolleys da Escola Básica Tecnopolis, pois também já tem o seu trolley. Segundo me disseram, o N. também quer um.
É claro que a tendência é evoluir e até já há quem ande a dizer que, bom, bom, era ter um telecomandado. São as vozes da inveja. Mas lá que era giro, era giro!
O V. mostrou logo o seu trolley à colega L. C., dizendo:
- A pressora também faz parte do TecnoRodas??
A colega não se ficou, inchou e respondeu:
- Sou membro fundador, V.!
Até a estou a imaginar, sem caber em si de vaidade.
Quanto aos cacifos, tudo anda muito calmo. Apenas a colega D. deixou um aviso, que atirou para o ar, mas que percebi que era para mim:
- Já ando farta daquele menino da lágrima!
- Toca-lhe! – pensei eu. Só não lho disse, não fosse ela mexer na criança e eu ter de me aborrecer deveras, que não seria coisa bonita de se ver.
A D.ª C. também me disse que o Sr. D. lhe tinha dito que, se calhar, quem me ratou as bolachas foi um rato. Eu cá acho que não. Eu até tenho praticamente a certeza de quem foi…

Por ora não conto mais nada. Tentarei voltar na segunda-feira.  

TECNORODAS - A ROLAR CONTRA AS DORES NOS COSTADOS

11 novembro 2015


A escola onde trabalho é, como já terão percebido, uma escola de gente muito sã. Mentalmente muito sã. A parte física é que anda toda descadeirada. Ele é costas, ele é vesículas, ele é tendinites, ele é músculos... enfim, é todo um manancial de maleitas, que aquilo, às vezes mais parece a esquina do Posto Médico lá da minha terra, onde os mais velhos se reúnem para o sobejamente conhecido desafio "eu tenho mais dores que toda a gente". 
Ora, aqui e ali, começaram a aparecer umas mochilas com rodas, vulgo trolleys , que me foram despertando a atenção. Comecei a perceber que o número destas geringonças estava a aumentar. Mas há assim tanta gente com problemas nessa escola?, perguntar-se-á o estimado leitor. A resposta é inconclusiva, pois, parece-me, há gente que, só para ter uma destas mochilas rolantes, começou a sentir pontadas no corpinho todo. Ora, se os outros têm pontadas, o que sou eu a menos que eles para não as sentir também. Vai daí, também comprei um trolley.
Estreei-o hoje. Enquanto deslizava pela sala, eu e o trolley, o A. perguntou: 
- Oh pressora, mas isso agora é moda cá na escola?
Pela questão do petiz, dá para perceber a quantidade de bichos destes que andam a rolar pelo corredor.
Perguntei à turma que nome lhe devia dar. Ouvi vários, mas o do J. foi o que mais me agradou: 
- "Mancha mobile", pressora!
Nisto, tive uma ideia, daquelas boas: pedir aos moços que, num papelinho, escrevessem um nome, para que eu depois pudesse escolher o melhor. Assim foi, e assim que me decidir, haverá uma crónica, tipo cerimónia de baptismo.
E o leitor não acha estranho, haver tanta gente com um trolley e não se formar logo uma associação, ou um clube, ou outra coisa qualquer, que dê seriedade a este movimento? Naturalmente, já pensámos, de forma ponderada e séria, nesse assunto. Foi na ponte, entre um ai que não me apetece ir dar aula e um bora lá mas é!, que a coisa se decidiu. Veio da L.C., o nome. E o nome é : TECNORODAS.
Sim, na minha escola formou-se o clube de trolleys, porque na minha escola dá-se importância às coisas importantes. E sim, já conseguimos o patrocínio do colega L., para uma corrida no autódromo. E eu cá já me estou a imaginar, na linha de partida, a olhar para os olhares ansiosos dos meus colegas e eles a olharem para o meu olhar competitivo e todos a sentirmos a adrenalina do momento e eis que se ouve o tiro de partida (será a N., com a sua pistola de fulminantes) e todos a rasgar as curvas, rumo à vitória.
Brevemente será agendado um beberete para os membros do clube, que decorrerá na sala de professores, sob o olhar de invídia de todos aqueles que não pertencem a este grupo vanguardista.
Tenho cá para mim, que sei qual é a prenda de Natal que muitos destes colegas irão pedir. E peçam, sim, e venham, em Janeiro, com os vossos trolleys, para , juntos, rumarmos em direcção ao pôr do sol, qual cowboys do conhecimento, destemidos, e corajosos a dizimarem as contraturas e as tendinites.