As roídas de inveja - dedicatória a duas colegas

25 outubro 2018

Tudo isto aconteceu há três dias atrás, mas… como esquecê-lo? Chegava ao estacionamento e lá vinha a colega R. B. com a sua herdeira. Veio logo a correr, aos gritos, a chamar por mim. Eu entendi a sua reacção, até porque é algo que as pessoas fazem sempre que me encontram, mas a menina ainda não tem entendimento e notei que se sentiu um pouco desconfortável ao ver a sua mãe naqueles preparos. Não se deve sentir vergonha de uma mãe, eu não sinto da minha, mas ela também nunca me saiu do carro, a correr e a chamar por quem passa.
Mas dizia eu, a colega R.B., esse marco de discrição, saiu do carro a chamar assim:
- Pchté! Eh! ‘Tão!
Confesso que, pela delicadeza do chamamento e pela variedade vocabular, pensei  fossem os alunos a reagir à minha passagem, mas não. Era ela.
- Olá, R.! Então hoje trazes a tua pequena M.? – respondi eu, num tom de voz bem colocado, para que, sem que me obrigasse à indelicadeza de lhe dizer, ela percebesse que tinha de estar  à minha altura, coisa duplamente difícil, dado o pouco mais de metro e meio de elegância que a colega ostenta.
- ‘Tão? – perguntou, carregadinha de modos e um sorriso rasgado.
Eu como não entendi a pergunta, não sei se por ser um pouco vazia de sentido, se por causa dos meus problemas de compreensão de enunciados orais, comecei a falar com a pequena M., que do alto dos seus 10 anos, manifestou um discurso mais rico e incomparavelmente mais coerente. E perguntei-lhe:
- Olha, queres vir à minha aula?
- Não! – respondeu a petiz de imediato, enquanto balançava negativamente a cabeça e todo o seu pequeno corpinho. Percebi logo que queria ir.
Ante o toque de entrada e a iminência de ir para a aula de Matemática da mãe, decidiu, sem surpresa, ir para a minha de Português. Os meus jovens alunos estavam a fazer o teste, então sentámo-nos lado a lado a desenhar. Devo dizer que fiquei, perdoem-me, ficou impressionada com o meu talento artístico.
Ao toque de saída, disse-me que tinha gostado muito e até acrescentou:
- Para te mostrar que gostei muito, sabes uma coisa?
- Não – respondi.
- Para a semana conta comigo! – assegurou com a felicidade estampada no rosto.
Ora depois deste episódio, já à saída da escola, encontrámos quem? Naturalmente, a colega I.O. que anda sempre a fazer-se notar para ver se entra aqui. E se muitas vezes a ignoro, ali não o podia fazer. Ao aperceber-se da vontade da pequena em voltar a ir à minha aula, sabe, caro leitor, o que lhe disse?
- Olha, queres ir à minha aula de ciências? Vai ser uma aula prática, vai ser muito gira! – isto acompanhado daquele sorriso que já se lhe conhece e que até enerva.
A petiz vacilou. A pequena ainda não aprimorou o gosto e parece que é a sua disciplina favorita. A mãe, essa, incentivava-a, enquanto me enfrentava com um olhar ressabiadíssimo. A colega I.O. olhava-me, também, desafiadora. Eu, cá mantive a elegância e só disse:
- ‘ aula de Ciências, sim, giríssima, só pedras , uh uh, isso sim, uma aula, ahhh…
E a passos largos subi as escadas, esbracejando e maldizendo o mundo.
E assim foi o dia.

Antónia Mancha:

Quase fotógrafa. Quase blogger.Quase cronista. Professora de Português. Quase como gostaria.


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