Há dias assim

20 outubro 2020

 


Desinteressantes e desinteressados.Esta foi a imagem com que fiquei deles, após a primeira aula. No início da segunda, não me apetecia entrar, sentia-me só, achei que não valia a pena, mas fiz o meu papel e a opinião inicial foi confirmada.

Aulas depois, elogiei-os. De facto, com todas as dificuldades que têm, tinham trabalhado muito bem. A resposta da S. ao meu comentário, não se fez esperar:

- É a única professora que diz bem de nós! – enquanto o dizia, os restantes manifestavam a sua concordância.

Sorri, mas saí da sala a pensar no que me dissera.

Ora, um destes dias, a propósito de poesia e de amor, entrei receosa, dá-me medo quando me sinto só na sala de aula. Lá lhes disse o que pretendia, uma frase sobre o amor, e que ia fazer esta atividade em todas as turmas, mas que tinha a certeza de que nesta iria ter os versos mais bonitos. A S. voltou a comentar. Desta vez:

- É a única professora que ainda acredita em nós.

Pedi-lhe que não dissesse aquilo e calou-me com um:

- Mas é verdade, professora!

No fim da aula, e vendo o resultado da entrega de cada um deles e os versos que escreveram, agradeci-lhes, e pedi-lhes que não voltassem a dizer que eu era a única professora que acreditava neles. Depois do que haviam escrito, pedi-lhes que pensassem um pouco na imagem que têm deles próprios, pois é essa que não os deixa avançar. São eles os primeiros a rebaixarem-se, a anularem-se. Pedi-lhes, também, que não se maltratassem.

A aula terminou e a coadjuvar-me estava a H., que comentou que assim é que devia ser o Português , em vez se se perder tanto tempo com tantas coisas inúteis. Entendi-a tão bem. E senti-me compreendida.

Hoje, após um exercício de escrita, a partir de um poema autobiográfico de Bocage, foi dia de ler os autoretratos que haviam feito. Num misto de vergonha por se mostrarem e um grito de ansiedade para se mostrarem, lá chegámos a um acordo, eu leria os textos, mas sem identificar o aluno. E assim foi. Ou quase. Por mais de uma vez, marejaram-se-me os olhos e a voz saíu entrecortada. Olhei para o fundo da sala e reparei que a H, minha colega de coadjuvação, lutava, também, para conter a emoção: eram as palavras, muito além do trivial, eram as metáforas que nem sabiam que tinham feito, era a preocupação com a rima, era a entrega em cada verso. Era, acima de tudo, o desconhecido manancial de beleza e encanto e vida que corre dentro deles e que os torna tão genuínos.

A estes jovens quero pedir desculpas pelo juizo que fiz, quero dizer-lhes que o valor que têm vai muito além da percentagem que eu tiver de converter em nível no fim da cada período e,  acima de tudo, quero agradecer-lhes o facto por me terem feito redescobrir o privilégio que é ser professora.

A cada um de vocês, obrigada.


#dia 14 Da série #euficoemcasamasenlouqueço

01 abril 2020
A minha mãe hoje não apresentou nenhuma solução, está confiante no que o governo faz, mas confiante não é estar adormecida, que assim que lhe notar alguma incompetência, volta à carga!
Os raminhos de eucalipto da minha tia, também chegaram a casa da outra tia que eu tenho. Delas não tive feedback, mas a minha mãe disse-me que não sabia se tinha sido do eucalipto, ou de outra coisa qualquer, mas que tinha tido uma noite muito descansada e que o quarto lhe cheira a saúde. Depois lamentou o facto de eu não ter onde arranjar umas folhinhas aqui para casa.
Desde manhã que ando p 'ra fazer um doce, mas como não faço ioga como a Da.C. deixei-me disso, não vá ter de chamar uma grua para me tirarem de casa quando isto acabar.
Continuo a manter o meu banho matinal, mas perfume é que só já ponho em dia de videoconferência, que gosto de me aperaltar para as minhas reuniões profissionais. Quem me entende é a Kate Middleton. Hoje vi uma foto dela a trabalhar no escritório lá de casa e, de facto,  segue a mesma linha que eu. Pelo menos a parte que deixou fotografar, que eu cá aposto que fora do ângulo do fotógrafo deve haver muita roupa por dobrar. Mas também com três crianças em casa não deve ser fácil.
A ver se vou jantar, para ver se descanso um bocadinho as pernas, que andam num virote todo o dia.
Até amanhã.

#dia 13 (continuação)

31 março 2020
Fiquei a saber que a D.ª C., depois de um "senhor cozido", foi fazer ioga. Digo-o, atenção, não porque ache que a Dª C. vai ficar gorda a comer e a beber daquela maneira, mas porque me vai espantar a sua forma física!

A D. pediu-me que corrigisse uma coisa no parágrafo que começava por "Neste segundo período...", que não parecia completo, escrevia. Eu cá fui logo corrigir, e embora não visse qualquer pertinência no reparo, sem qualquer contrariedade substitui por "Ao longo deste período...", emenda que deu azo a um imediato telefonema, no qual a D. aproveitou para me enxovalhar, dizendo-me que eu era como os alunos. Que não lia tudo até ao fim. Que não era aquele início de parágrafo, era uma frase inacabada no parágrafo que começava pela expressão supracitada.
Depois, sem qualquer contemplação, ouvi-a perguntar:
- Olha lá, tens mel?
-Sim - respondi eu, enquanto já pensava, voluntariosa e desprendida, dar-lhe um frasquito que trouxera do meu Alentejo.
- E está a funcionar?
Eu, que não sou parva, achei logo a pergunta estranha  e antecipei-me:
- Oh, D., creio que não estamos a falar da mesma coisa.
Voltei a perguntar que pergunta é que me tinha feito. Ela respondeu e eu também, dizendo-lhe:
- Ah, não, eu tenho NOS.


#dia 13

Covid-19

Solução isolamento
A minha mãe acha que para que os que se queixam por estarem confinados a quatro paredes há uma solução: "Ele (o primeiro-ministro) que diga que podem sair, mas que têm de pegar numa enxada e cavar o quintal dos vizinhos que vivem no campo. É o saem!"

Quase solução covid-19
A minha tia viu num vídeo que eucalipto era muito bom, que não sabia se acabava com o maldito vírus, mas não havia mal nenhum em experimentar. E como tem um coração gigantesco, mandou logo o meu tio ir apanhar umas ramas. Depois pôs mãos à obra e toca de fazer uns molhinhos e distribuir pela família." Ponham-nos no quarto",  dizia ela.
 Quem me contou isto foi a minha mãe, que emocionada comentou: "Coitadinha, lembrou-se também de mim", e continuou " mas eu disse-lhe logo que à noite tinha de o tirar, por causa das minhas alergias e ela disse que a tua prima também já estava farta de espirrar."

E eu, deste confinamento, era moça para pegar numa enxada e ir cavar o nosso quintal e o dos vizinhos. E era moça também para pôr umas ramas de eucalipto aí no quarto e adormecer com esse sorriso de ternura que a simplicidade genuína nos dá.
Obrigada ♥️

As máquinas

05 novembro 2019

Apesar da tecnologia ser parte do século XXI, há máquinas por aí, no dia a dia, que não fazem rigorosamente nada, ou seja, são uma perda de dinheiro para a pessoa que as comprou.
Na minha opinião, se há máquinas, elas deviam funcionar, não só fazer de enfeite. Por exemplo, no Intermarché agora há um “portão eletrónico”: em primeiro lugar, aquilo só abre quando quer e fecha quando quer. Eu já vi pessoas à frente do “portão” a abanar as mãos por todo lado,  a tentar fazer como que aquilo abra, mas acabam por desistir e ir embora. Em segundo lugar, há vezes em que não abre, nem sozinho, nem se estiver alguém a tentar abri-lo.
Por outro lado, temos as máquinas registadoras, que, de vez em quando, param de funcionar, ou adicionam uma pizza que não comprámos e mais dois euros e noventa e nove ao talão.
Depois, quando pegamos nas compras para ir embora, temos as máquinas de alarme, que fazem um baruho terrível, por causa de uma fita de que nos esquecemos dentro da blusa.
Conclusão, não vá às compras com uma blusa da Primark, nem tante entrar pelo “portão electrónico” e, acima de tudo, nunca vás às compras com pressa, é que vai perder a sua marcação no médico.
Tudo graças às máquinas.


Rhiannon Bergson, 9ºF

Óculos graduados

04 novembro 2019

Vou ter de começar este texto de alguma maneira, portanto, o assunto que vou abordar será o dos óculos graduados. Não poderei fazer comparação entre usá-los e não os usar, porque durante toda minha vida os utilizei, por isso o que realmente me levou a escolher este tema foi o facto de, pela oitava vez, ter conseguido partir outro par.
Primeiramente, deixem-me dizer que não existe praticamente nenhuma vantagem em utilizar este tipo de óculos, pela minha experiência, a única vantagem é poder ver o mundo de outras formas, pois basta tirá-los e vejo tudo às manchas. Já se os inclinar no nariz, vejo tudo, como hei de descrever, esticado, tudo à volta parece estar a ser sugado. Isto só serve para quando estou aborrecida enão tenho nada para fazer.
Tirando esta brincadeira, tudo o resto é extremamente maçante, não posso usar cachecol, porque os óculos ficam embaciados; vou tentar comer alguma coisa quente, como sim, mas sem ver nada. Se os tiro não vejo e se os mantenho fico na mesma. Ao levar com uma bola ou um telemóvel na cara, dói ainda mais, graças à aquela coisa que se prende no nariz.

Terei de comprar óculos específicos para tudo, ou seja, se quero fazer mergulho, praticar um desporto mais perigoso  ou quaisquer outras atividades que necessitem de proteção facial,  eu não consigo realizar tudo a 100%, porque não vejo nada, é a vida…
Para além de tudo isto, existe uma certa atração por parte das pessoas para serem minhas oftalmologistas: mal eu pego nos óculos para os limpar, vem logo um amigo perguntar “posso experimentá-los?” e depois afirmações muito úteis, como “Ah! tu tens muita falta de vista, sabias?”, coisa de que eu não fazia ideia. Seguidamente, vem o derradeiro teste de “quantos dedos tenho aqui?” e “o que está escrito ali?”. Eu devo informar que consigo ver como uma pessoa normal durante 15 segundos, após isso vem a dor nos olhos.


Bem, se não usa óculos, sinta-se sortudo, porque não existe coisa mais irritante do que depender das condições meteorológicas para ver alguma coisa, nem nada mais incómodo que a dor que causam, e claro, o desespero que é vê-los partidos, em duas partes… aí vem o murro no estômago ao ver o preço no final da fatura da ótica.

Ana Curado
9ºE

A outra - a crónica necessária

05 fevereiro 2019



Contrariamente à crónica anterior, esta reveste-se de uma pertinência inegável. É que, ontem, entre perguntas como “Então e a crónica?” e “Passei todo o fim-de-semana no Facebook”, também houve comentários mais sérios, revestidos de uma inegável tristeza que, naturalmente, comoveram este brando coração que trago no peito. Eis o responsável de tamanha comoção:
- Olha lá, Antónia, quando é que entraste no elevador sem que eu te visse?
Pus em funcionamento os incontáveis neurónios que trago comigo, numa tentativa desesperada de perceber exactamente a que é que a colega em causa se referia. Assomou-me logo uma pergunta: seria suposto ela ver-me sempre que entro no elevador? Ou andaria a colega a controlar as vezes que subo e desço, numa tentativa de controlar e baixar a conta da energia que a escola gasta? Já a chegar a um ponto de insustentável indignação, lá consegui alcançar o que me pretendia perguntar:
- Não eras tu! – disse logo eu, com a sensatez e a sensibilidade que tanto me caracterizam. Só depois me apercebi do olhar de desilusão com que me miravam. Numa questão de segundos, tentei “compor o ramalhete” e noutra fracção de segundos, achei melhor não piorar as coisas e disse:
- Agora tenho aula, depois falamos.
Passo a explicar: na penúltima crónica, referia a fúria da colega M.C. que passou por mim sem me ver, tal o estado de desorientação em que ia, para nem sequer reparar na pessoa que sou. Ora o que é que acontece? O que acontece é que as pessoas gostam muito da coscuvilhice e vá de lerem as crónicas, para, de alguma forma, encontrarem sentido para a sua existência. (Permitam-me este parêntesis, o sentido da existência é não ter qualquer sentido. Isto só para vos poupar a buscas infrutíferas.)
Vai daí, uma colega, que também é M.C., mas não a M.C. a quem me referia no textozinho, achou que era dela de quem falava e vá de me pedir explicações. Onde é que eu a tinha visto, sem que ela me tivesse visto e/ ou vice-versa. Foi neste seguimento que veio a tal resposta: “Não eras tu”, que quase fez verter uma lágrima à M.C. a quem não me referira.
Para que fique claro, a colega M.C. aludida é a de M., já a outra, a que teve pena de não ser ela, é de M. Faço-me entender? É que não posso passar das iniciais, por uma questão de protecção da privacidade, coisa que está muito na moda e eu gosto muito da vanguarda. Vai daí, caríssimos leitores, deixo-vos a pensar. Quem é a colega M.C. referida? Quem é a colega M.C. ignorada, mas que ansiava por ser referida?
Importa uma discussão séria em torno da questão. A colega M.C. agradece. E lá está de novo o equívocozinho.  A quem me referirei?
Depois da aula, encontrei-a. A que pensava ter sido referida e que recebeu, como faca afiada no peito, o desengano de que a M.C. não era ela. Era a outra. E disse-me ela. A que não apareceu na crónica:
- Ah, e eu a pensar que era eu…
- Não, “afinal havia outra(1)”, mas vou escrever só para ti. – assegurei.
Como não falto à palavra dada e tenho muitos testes para corrigir, aqui estou a escrever para a M.C., de M., não a M.C., de M.
E assim vão os dias…

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(1(1)  – “Afinal havia outra” –êxito musical de Mónica Sintra, essa incontornável voz da mais erudita música portuguesa.