As "fotos do coisinho"

28 setembro 2018


Estávamos na sala e os petizes a registarem os apontamentos. O A.T., que até é um rapaz despachado, pedia-me que não avançasse, que estava perdido. Revirei ligeiramente os olhos e esperei um pouco mais. Às tantas, esperava eu e toda a turma. É então que a T.B., não sei se para me auxiliar, se por estar fartinha de esperar e ansiosa por mais apontamentozinhos ou se por ambas as coisas, virou-se para mim e disse:
- Avance, pressora, eu depois mando-lhe fotos – e enquanto dizia isto, apontava para o A.T.
Eu cá, fiquei logo com a pulga atrás da orelha, mas calei-me, que eu não gosto de enredos. Mas o A.T., fazendo-se despercebido, de sorrisinho espelhado no rosto, perguntou:

A festa mais bonita que não chegou a existir

27 setembro 2018

Cheguei à escola e o colega P.C. disse-me logo que agora até tem medo de falar comigo, o que não é de espantar, este corpo atlético intimida , bem sei. Mas, ainda ssim, fiz-me de desentendida e perguntei a razão de tal receio, ao que respondeu que nunca sabe o que venho aqui escrever e que o melhor será falar de assuntos estritamente profissionais e vá de abordar o tema do casório. Eu calei-me, e deixei que ele próprio deixasse a nu o seu caráter e o amor que dizia ter por mim há duas crónicas atrás. A chegada da colega M.C. veio ajudar à festa e ela, que segundo disse até já tinha a fatiota comprada, foi muito clara na apreciação do caso e disse logo: 
- Não te cases! 
E eu concordei. É que parece que a nossa união era, para quele que seria meu noivo, um “assunto estritamente profissional”. 
Nas aulas, nada a registar. Os moços estão todos demasiado normais para o meu gosto, a ver se a coisa muda. Tenho esperança que algum sueste de aproxime os faça aparvalhar. Aparvalhar, mas com classe, coisa que nunca perco, aparvalhando muito. 
Ouvi também uma conversa entre os colegas P.C. e C.B.. O segundo é secretário do primeiro e queria saber que funções desempenhar naqueles 20 minutos que nós temos de dar ao Ministério pelas horas a mais que trabalhamos. O P.C. não se fez de rogado e disse que tinha de atender os EE, preencher aquela papelada que ninguém sabe para que serve, mas que todos entregamos dentro dos prazos, consultar e analisar os processos, tudo em 20 minutos. Enquanto isso, o C.B. sorria e depois foi-se embora. Ele há gente... 
Subi e fui comprar uma água, que ainda afogo as entranhas com este calor. Encontrei a T.B. que me disse que se falou de mim nas suas aulas de 10º ano, a propósito de El Quijote de la Mancha, tendo ela mantido a versão de 2015. Disse-me a que aluno o disse e eu disse-lhe que ele é rapaz para acreditar. Decorria a conversa e ouvi nas minhas costas “mas estás visivelmente mais magra” eu olhei logo, claro. Era a E.C. a dar um ar da sua graça e da sua ironiazinha. Também ela anda a lutar pela eternidade nestas linhas. Atirei-lhe com um olhar, mas esborrachei-o na parede, porque ela já ia a chinelar corredor fora. Como é Coordenadora, anda sempre de um lado para o outro a tratar daqueles papéis que ninguém sabe para que são. E assim foi o dia. 
E assim vão os dias.

Acaba o amor à pedrada

26 setembro 2018



De manhã começa o dia e às 8:10h, mais coisa,menos coisa já estava na escola, desnorteada, à procura dos meus pertences que não encontrava em parte alguma. A colega R. aproveitou para uma piadolas, que ignorei, em nome da boa educação que tenho.
Depois, no intervalo, começaram a chegar as felicitações. (Os leitores que não sabem do que falo, que leiam a crónicade ontem e ficarão a entender o motivo de tanto alvoroço). Lá encontrei a outra metade que comigo subirá ao altar, que ainda não sabia que havia tornado pública a nossa decisão e disse-me que ia ler assim que tivesse oportunidade. Encontrei-o depois, desanimado, e até me pareceu ver-lhe no rosto um vislumbre de desapontamento:
- Oh, mulher, então quase não escreveste nada, esperava muito mais! – dizia, enquanto já sorria sedutoramente à colega C.M., que lhe retribuía o mostrar de dentes. Fiquei logo com a pulga atrás da orelha, ainda para mais quando essa colega disse que quer ir ao casório. A ver se não fico no altar, enquanto estes fogem para viver alguma tórrida paixão surgida ali, no intervalo.
Fui para a aula. Enquanto os petizes trabalhavam, perguntei se alguém tinha marcadores fluorescentes que me emprestasse.
- Eu tenho, mas só de duas cores! – disse a M.
- Podes emprestar-me? – perguntei eu.
- Sim! – disse a M., sorridente.
Lá me levantei para os ir buscar, enquanto comentava, queixosa:
- Tem marcadores, mas levantar o rabiosque da cadeira para mos vir trazer é que não. Tem de ser uma pobre senhora de trinta e doze anos a fazer tudo.
Os moços sorriram. Um silêncio breve. E depois isto:
- Sabe pressora, a gente ontem ‘teve a querer fazer isso com a nossa idade, mas não dá! – disse a E., com um largo sorriso, que foi acompanhado pelo risinho geral, como quem diz “tens a mania que és jovem”.
Eu sorri-me, mas disse logo que a conversa acabava ali. E acabou, que eles sabem que posso ser tão perigosa quanto imprevisível.
Novo intervalo, nova aula e eu disse assim:
- O powerpoint está mesmo giro, não está?
Que sim, diziam os moços. O B. ainda quis ter uma opinião doferente, mas cortei-lhe logo as perninhas, que eu cá sou muito democrárica, mas até certo ponto.
- Então, e digam-me lá, já viram powerpoints mais bonitos que os meus?
Após uma hesitação, que se desvaneceu assim que arregalei os olhos. O B., esse, nem levantou os dele.
Não satisfeita com o silêncio, voltei à carga:
- Então e há mais professores a mostrar-vos powerpoints?
Que sim, que havia. E eu só pensava “raios partam os moços que não se descosem”.
- Então e que professores é que vos têm trazido powerpoints, digam-me lá... – desafiei, já quase em desespero.
- Sim, pressor de C.N.!
- Ah, sim?! E que tal são os powerpoints do professor P? Mais bonitos não são, de certeza. – comentei segura.
-  Oh, são só pedras! – disse o A.
- A sério? – perguntei, fingindo incredulidade.
- É que é mesmo, disse a A.
Eu sorri-me, mas por dentro gargalhava.
De preocupação.
É que já eram famosos pelas bactérias. Agora são pedras.
Eu que sou pelo profissionalismo pedagógico, sugiro uma averiguação isenta àquilo que este colega (e quem sabe quantos mais) anda a fazer nas aulas.
Tenho cá para mim que já não preciso preocupar-me com a ementa do copo de água...

Há casório à vista

25 setembro 2018



Isto há dias mais calmos. Hoje foi um deles. A nível de moços, porque hoje foi um dia especial. 
A aula correu dentro da normalidade, entre um “oh pressora, vai muito depressa” e um  “despacha-te a escrever” e do intervalo, apenas a registar um “oh pressora” em alta grita. Era o P. e outro jovem, cuja cara tenho em mente, mas cujo nome ainda se me escapa. O P. só me dizia “Ai pressora, ontem já apareci!” (sim, o jovem P. é o que pugna bravamente pela imortalidade nestas singelas linhas de prosa) e o outro jovem, sorridente, mas visivelmente desapontado, informava-me de que não o tinha referido na crónica de ontem e havia na sua expressão uma clara reprovação por não reconhecer o mérito do seu esforço.
Antes do atendimento aos Encarregados de Educação, aproveitei para dizer à colega P.G. como a sua elegância chega a ser deselegante para os mais anafadinhos. 
Após receber os pais avistei a colega I., sempre tão sorridente que até enerva e disse-lhe assim:
-Oh I., sabes uma coisa?
- Diz lá! – e sorria com aquela dentição perfeita que chega a ser deselegante para os que têm de usar a sua protesesita dentária.
- Estou a segundos de mandar a minha dieta ao ar – disse eu, a meter-me com ela, que dieta é coisa de que não preciso, facto que se confirma com a resposta, sob a forma de pergunta, que a colega I. me devolveu:
- Estás de dieta? - o ar era de incredulidade, digo eu. 
- Estou, não é que precise, eu sei, mas estou.
A I. continuava a sorrir e tive vontade de mandar ao ar aquele sorriso, pois em algum momento foi capaz de dizer um "estás bem assim", "dieta para quê?". É muito sorridente a colega I., mas a mim não me engana.
Depois, a colega S. entrou e vinha a comer bolachas. 
Eu tinha fome. 
Aproximei-me muito, muito das bolachas que trazia e comentei, quase em cima do delicioso alimento que estava prestes a ingerir:
- São tão boas essas bolachas e eu tenho tanta fome!  - a minha esperança era que a colega se comovesse. Nada. Bem tentei que alguma gotinha da minha saliva aterrasse no cobiçado pitéu. Se aterrou, e eu creio que sim, não surtiu qualquer efeito. A colega S. arregalou muitos os olhinhos e, de mãozinha no peito, dizia que só tinha aquela. Houve um momento em que parecia mesmo que ma ia dar, qual quê, comeu-a. Sem remorsos e depois disse que tinha de ir para a aula, deixando-me a babar de fome e incrédula com tamanha frieza
A seguir foi a colega I.S., mulher de grelhas excel e muitos números. Chamou-me para ver um naco de prosa, daquela escorreita, que diz muita coisa. Que estava boa, disse eu, mas comecei a sentir uma pontada no ventre. É que quando vejo muitos números e prosa escorreita, o intestino dá-me sinal. Aliás, há muito que não necessito de qualquer laxante. Quando a natureza não faz o que tem a fazer, abro logo umas grelhazinhas e é um alívio. Alívio que dispensa descrição, pois todos, em algum momento, já o sentimos.
E onde está esse dia especial, apregoado logo no início da cronicazinha. Pois cá vai a revelação:
- Ai, tenho de ir para a outra escola. Eu, contigo ficava aqui a tarde toda. Temos de nos casar e mesmo assim, 24 horas contigo é pouco. – disse um colega, cujo anonimato vou preservar, para que não venha o divórcio antes da própria boda.
- A gente casa-se, sim. – disse eu, já a pensar na ementa saudável que terei de mandar preparar para o copo d’água.
E assim vão os dias.

"De pés para a cova" a salvar a humanidade

24 setembro 2018

Como é sabido, as minhas aulas são aulas onde cabe tudo. Com modos e o devido respeitinho, claro está. Hoje houve tiros. Coisa digna de título gordo em qualquer jornal norte-americano. Quase um massacre, a bem da verdade. 
Enquanto desfiava a materiazinha, senti que os petizes estavam a respirar mais da conta, então, comecei a silenciar-me para que escutassem o seu eu interior, uma técnica ancestral que vai ao encontro de muitas modas de hoje em dia. Mas qual quê, quando aparentemente tudo estava a serenar, irrompe do silêncio o estrondo de uma arma:

(Textos dos alunos) Maria

23 setembro 2018

Maria estava caminhando, cansada, talvez com medo por não saber o caminho que iria seguir ( eram tantos ), quando Júlia ligou a perguntar se ela não gostaria de almoçar em sua casa. Acho que por um momento ficou animada por finalmente ter para onde ir, mesmo não gostando de estar com Júlia. 
Maria era o tipo de pessoa que todos gostam de estar por perto: tranquila, profunda, sorridente, educada, mas ninguém sabia o que por dentro dela se passava. Talvez todo seu medo, na verdade, fosse afundar na sua própria profundidade e não mais conseguir seguir. Ela sabia que Júlia só tinha interesse na sua bondade, queria o mundo, mas não passava pelo caminho da conquista. 
 Para Júlia, o almoço tinha sido bom, algo normal, como no dia a dia. Para Maria fora como facadas, falsidade em forma de comida. 
Teria sido melhor ficar sem rumo, sua animação já tinha ido embora e agora ela ia voltar para a rua à procura de uma saída. Acho que na realidade Maria só queria uma oportunidade para colocar para fora toda a sua profundidade e tapar os buracos que seus erros deixaram para trás, sarando todas as suas feridas. 
 Maria só queria ver o mundo da forma certa e deixar padrões que as pessoas trazem, pensando extrair um lado bom da vida, quando tudo, na verdade, não passa de um roteiro para uma falsa realidade 
(e como ela odiava a falsidade ).


Texto de Raissa Albuquerque (9ºD - 2017/2018)


Nota:
(A Raissa foi minha aluna cerca de um mês e meio. Talvez nem tanto. Mas foi daqueles alunos que marcam muito. Veio de longe, de para lá do oceano e chegou, discreta, meiga, educada e sorridente. Trazia algo com ela, que prendia. Percebi-o de imediato. Confirmei-o quando me disse que gostava muito de Clarice Lispector. Tinha uns 14/15 aninhos e muito mundo dentro. O texto que aqui publico, bem sei, não é uma crónica, mas é tão belo, tão profundo, que, creio, me perdoam o deslize.)

Amazona do asfalto ou a arte da a omnipresença

21 setembro 2018


Cada vez gosto mais do que faço, muito por culpa do que o que faço me obriga a fazer: entro às 13:30, saio da primeira aula às 14:15h e entro na segunda às ... 14:15h, sendo que entre uma sala e outra há uns bons quilómetros de permeio. “Que hipérbole!”, já vos ouço dizer. Muito embora aprecie a utilização (ainda que errada) desse recurso expressivo, não posso apreciar a apreciação que fazem dos passos que tenho de dar, pois sou eu que sinto escangalhar-se-me tudo neste corpo, que ainda que perfeiteinho, não vai para novo. Quando entrei na sala, grossas bagas de suor escorriam-me por estas já quase mirradas maçãs-do-rosto e, dos membros inferiores, só sentia as borregas nos pés de tanto caminho feito. E ainda estava a meio do calvário que me esperava.

Parêntesis vocabular
Antes que me imaginem, destemida e com  os ossos a ranger,  a caminhar pelos pátios da escola com duas borregas presas aos pés, saibam que borrega(s), nesse meu país distante que é o Alentejo profundo, são bolhas nos pés. E como somos uma aldeia global, as terras além do Tejo já se fazem ouvir de outra forma e devem ter gritado tanto, que o próprio Priberam já contempla esta definição.
Fim do parêntesis vocabular

Comecei a aula e, ante a iminência de marcar uma falta de material, recorri ao Plano B e ofereci um lápis ao F., não sem antes lhe dizer que não sabia de quem era, que provavelmente o teria roubado a algum aluno no ano anterior, ao que o D., perspicaz, concluiu: “Então a professora rouba!”. Ele não devia saber qual é o feminino de ladrão, por isso improvisou e pelo improviso, em vez de me ofender, confirmei, adiantando que é mais forte do que eu, que não me consigo controlar. Discretamente, alguns jovens começaram a proteger os seus pertences. Gosto de impor o meu respeitozinho.
Montes e vales percorridos, qual amazona destemida, cheguei à outra sala. Estavam todos ansiosos, um até me disse “Está 3 minutos atrasada”. Deu-me vontade de lhe bater, mas ao pôr-me no lugar do petiz,  senti-lhe a tristeza por já ter perdido esses três minutos de uma aula de excelência e até lhe sorri. Pensei também fazer destas corridas um desafio, a ver se melhoro o tempo que faço entre uma sala e outra, que é como quem diz a ver se encurto a viagem até ao caixão.
Na aula, o P. disse que era insuportável, eu concordei, até porque gosto de eufemismos. Disse também, o Pedro, que 2ª feira vai “fazer qualquer coisa para ir para lá”, o adverbiozinho refere-se aqui ao blogue, às crónicas. Quer a imortalidade, o jovem!
Depois disto, esgotada, fui ter com outros petizes. Estes, até para respirarem precisam da minha ajuda...dá-me cá umas ideias... 90 minutos depois esperavam-me os últimos. Eu, já esfrangalhadinha, só me ocorreu dizer-lhes: “Vamos todos fingir que estamos entusiasmadíssimos, que são 8:20 da manhã e esta é a nossa primeira aula” e lá levámos a coisa, ansiosos pelo intervalo das 10h.
E assim vão os dias.

Acudam a gente que a gente não aguenta

20 setembro 2018


Foi calmo o dia. Será deste calor que só com a interveção divina se pode aguentar. Por isso, tive aulas muito religiosas. Uma petiz que dizia que não sabia as orações, disse-me assim:
- Oh pressora, eu não sei as orações!
Aqui entre nós, que ninguém nos lê, a óbvia resposta não se fez esperar e  aventei-lhe logo à cara com:
- Oh minha menina, toda a gente sabe um Pai  Nosso e uma Avé Mariazita, até eu! Não seja mas é herege e faça!
Ainda ouvi “Pai Nosso que estais no céu...”, mas pus um olhar do demo e a coisa ficou por ali. E o meu olhar também, pois ouviu isto: “ Mó bonitinho esse texto da avozinha”. Incrédula, olhei para o jovem e perguntei-lhe o que tinha dito, não podia ser verdade! E não é que me respondeu:
- Mó bonitinho esse texto da avozinha, professora!
Achei bonito o momento, mas quis parecer-me que ao dizê-lo, o discente não fez a pausazinha do vocativozito, o que poderá querer dizer que achou que a avozinha do conto era professora e com isso e um olhar entornadíssimo dizer que eu sou uma professora com ar de avozinha. Este é um assunto a que terei de voltar na próxima aula, que eu gosto de tudo muito bem esclarecido.
A aula lá terminou, e porque o calor é muito e só Deus para nos acudir, lá me despedi com um “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe” e, claro, ouviu-se um “Graças a Deus” estampado num rosto descarado e sorridente, mas cheio de uma fervorosa fé.
Mesmo a encerrar o dia, chegou a reunião com os pais. Disse-lhes que ainda ando a morrer de amores pelos petizes, mas que temo que a rotina desgaste a relação. A determinada altura uma senhora, que havia entrado, após ter-me apresentado, perguntou-me se eu era professora de Matemática, ao que pedi que não me ofendesse, isto, claro, sem querer ferir susceptibilidades e para terminar apagaram-se as luzes, estava na hora da despedida. Ainda ficámos um pouco mais e já pouco se via, por isso, assegurei aos pais que, na próxima reunião, trarei uma vela, até porque eu gosto de criar bom ambiente.
E assim vão os dias.

Brutal e verdadeiramente interessante

19 setembro 2018

Este início de ano letivo estava a ser bom: um Primeiro Ministro que diz que quer os professores a ganharem mais (eu quis acreditar que mais dinheiro, mas talvez ele se referisse a outra coisa qualquer) e um Presidente da República que diz que somos os melhores professores do mundo. Uma espécie de Ronaldo das escolas, é assim que me sinto. É claro que tudo isto me motiva e me faz trabalhar mais, já com a mira na bota de ouro do ensino. Como se não bastasse tanto, tanto entusiasmo, tenho a sorte de ter alunos excelência. Pelo menos até agora, que ainda não tentei ensinar nada...
Comecei o dia a dizer aos meus petizes do 7º ano que comigo só passa quem souber o nome completo dos meus gatos, coisa que só iriam ouvir uma vez. Era vê-los a tirar apressadamente os caderninhos e as canetinhas para registarem o apontamentozinho, não fosse o diabo tecê-las. O B. até disse, “Mas eu sou holandês e ainda escrevo mal em português”. Mantive-me inexpressiva, pois gosto logo de deixar muito clarinho que comigo não se brinca. Terminada a aula, foram ter com os colegas do outro turno, que estavam a sair da aula de Matemática. Contou-me a colega R., que é pessoa discreta e nada dada ao “diz que disse”, que eles chegaram e disseram, de olhos muito arregalados: “A professora de Português é brutal!”. Ora isto caiu-me logo bem, até porque “brutal”, diz o dicionário que é algo próprio do bruto e que também pode ser desumano.
Veio o intervalo e lembrei-me que ontem, depois de um longo e terno relambório ( as aulas começaram há três dias e a ternura ainda cá canta), dei aos petizes da minha DT uma segunda oportunidade para me mostrarem a caderneta, com a convocatória devidamente assinada pelos seus Encarregados de Educação, coisa que deveriam ter apresentado naquele momento. Que sim, disseram-me eles com os olhitos, já que estavam um pouco envergonhados pelo seu incumprimento. Isto do envergonhados é aquilo em que quero acreditar, claro, afinal,“o sonho comanda a vida”. Apontei logo o nome dos incumpridores, que eu não estou para brincadeiras e hoje, à hora marcada, no sítio combinado, de ar imponente lá fui delicadamente vociferando um “obrigada por não se terem esquecido”. Eu cá nisto dos incumprimentos, reconheço, não sou flor que cheire. Já todos se tinham ido embora, reparo que uma alma penada não tinha respondido à chamada. Senti que aquilo não estava certo, mas decidi tratar do jovem depois do meu intervalo. Achava eu, pois estando à conversa com o colega P.C., aparece, não sei se caído do céu, o T.. Vinha muito à pressa para me mostrar a caderneta, conforme solicitado. Não dava com ela. Mochila no chão, vá de procurar, vá de ma dar, vá de procurar o recado “Oh, T.,, mas eu não encontro a parte dos recados...ah, está aqui, mas... T., tu nem o recado passaste, isto está tudo em branco!”, disse eu entre o espanto e a fúria. E o T. disse que não estava nada, porque no dia em que eu passei o recado ele não tinha a caderneta, e perguntava se eu não me lembrava. A fúria já tinha dado lugar ao pasmo e foi assim, pasmada, que tive com o T. o seguinte diálogo:
- Mas, oh T., então mas tu passaste o recado, onde é que está?
- No caderno de Matemática!
- Certo, então e o caderno de Matemática?
- Hoje não tenho Matemática!
Embora seja real a minha intransigência com o incumprimento, a verdade é que o jovem me mostrou a caderneta, não estava lá o que eu pretendia, mas eu talvez não me tenha explicado bem.
Depois disso, lá fui para outra aula, tudo decorreu normalmente, a estranha dança da abelha protagonizada por duas jovens, uma delas a E. e outra, cujo nome ainda não sei e depois à pergunta, o que é que o advérbio está a fazer na frase “A professora de Português é verdadeiramente fantástica”, uma jovem respondeu, convicta: “A dizer a verdade”, coisa que me fez inchar de satisfação. E assim vão os dias.




De volta

17 setembro 2018


Pois cá estamos uma vez mais. Para mim, é já o 20º ano! Todo um corpinho feito de sabedoria!
Na sexta-feira, já comecei com o relambório, mas hoje, sim, vai ser a sério, que eu cá gosto de pôr os pontos nos is logo no princípio, para que se saiba logo quem é que manda.
Deus nos ajude a todos ao longo destes 9 meses. Que não haja muitos enjoos...