Acaba o amor à pedrada

26 setembro 2018



De manhã começa o dia e às 8:10h, mais coisa,menos coisa já estava na escola, desnorteada, à procura dos meus pertences que não encontrava em parte alguma. A colega R. aproveitou para uma piadolas, que ignorei, em nome da boa educação que tenho.
Depois, no intervalo, começaram a chegar as felicitações. (Os leitores que não sabem do que falo, que leiam a crónicade ontem e ficarão a entender o motivo de tanto alvoroço). Lá encontrei a outra metade que comigo subirá ao altar, que ainda não sabia que havia tornado pública a nossa decisão e disse-me que ia ler assim que tivesse oportunidade. Encontrei-o depois, desanimado, e até me pareceu ver-lhe no rosto um vislumbre de desapontamento:
- Oh, mulher, então quase não escreveste nada, esperava muito mais! – dizia, enquanto já sorria sedutoramente à colega C.M., que lhe retribuía o mostrar de dentes. Fiquei logo com a pulga atrás da orelha, ainda para mais quando essa colega disse que quer ir ao casório. A ver se não fico no altar, enquanto estes fogem para viver alguma tórrida paixão surgida ali, no intervalo.
Fui para a aula. Enquanto os petizes trabalhavam, perguntei se alguém tinha marcadores fluorescentes que me emprestasse.
- Eu tenho, mas só de duas cores! – disse a M.
- Podes emprestar-me? – perguntei eu.
- Sim! – disse a M., sorridente.
Lá me levantei para os ir buscar, enquanto comentava, queixosa:
- Tem marcadores, mas levantar o rabiosque da cadeira para mos vir trazer é que não. Tem de ser uma pobre senhora de trinta e doze anos a fazer tudo.
Os moços sorriram. Um silêncio breve. E depois isto:
- Sabe pressora, a gente ontem ‘teve a querer fazer isso com a nossa idade, mas não dá! – disse a E., com um largo sorriso, que foi acompanhado pelo risinho geral, como quem diz “tens a mania que és jovem”.
Eu sorri-me, mas disse logo que a conversa acabava ali. E acabou, que eles sabem que posso ser tão perigosa quanto imprevisível.
Novo intervalo, nova aula e eu disse assim:
- O powerpoint está mesmo giro, não está?
Que sim, diziam os moços. O B. ainda quis ter uma opinião doferente, mas cortei-lhe logo as perninhas, que eu cá sou muito democrárica, mas até certo ponto.
- Então, e digam-me lá, já viram powerpoints mais bonitos que os meus?
Após uma hesitação, que se desvaneceu assim que arregalei os olhos. O B., esse, nem levantou os dele.
Não satisfeita com o silêncio, voltei à carga:
- Então e há mais professores a mostrar-vos powerpoints?
Que sim, que havia. E eu só pensava “raios partam os moços que não se descosem”.
- Então e que professores é que vos têm trazido powerpoints, digam-me lá... – desafiei, já quase em desespero.
- Sim, pressor de C.N.!
- Ah, sim?! E que tal são os powerpoints do professor P? Mais bonitos não são, de certeza. – comentei segura.
-  Oh, são só pedras! – disse o A.
- A sério? – perguntei, fingindo incredulidade.
- É que é mesmo, disse a A.
Eu sorri-me, mas por dentro gargalhava.
De preocupação.
É que já eram famosos pelas bactérias. Agora são pedras.
Eu que sou pelo profissionalismo pedagógico, sugiro uma averiguação isenta àquilo que este colega (e quem sabe quantos mais) anda a fazer nas aulas.
Tenho cá para mim que já não preciso preocupar-me com a ementa do copo de água...

Antónia Mancha:

Quase fotógrafa. Quase blogger.Quase cronista. Professora de Português. Quase como gostaria.


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