Amazona do asfalto ou a arte da a omnipresença

21 setembro 2018


Cada vez gosto mais do que faço, muito por culpa do que o que faço me obriga a fazer: entro às 13:30, saio da primeira aula às 14:15h e entro na segunda às ... 14:15h, sendo que entre uma sala e outra há uns bons quilómetros de permeio. “Que hipérbole!”, já vos ouço dizer. Muito embora aprecie a utilização (ainda que errada) desse recurso expressivo, não posso apreciar a apreciação que fazem dos passos que tenho de dar, pois sou eu que sinto escangalhar-se-me tudo neste corpo, que ainda que perfeiteinho, não vai para novo. Quando entrei na sala, grossas bagas de suor escorriam-me por estas já quase mirradas maçãs-do-rosto e, dos membros inferiores, só sentia as borregas nos pés de tanto caminho feito. E ainda estava a meio do calvário que me esperava.

Parêntesis vocabular
Antes que me imaginem, destemida e com  os ossos a ranger,  a caminhar pelos pátios da escola com duas borregas presas aos pés, saibam que borrega(s), nesse meu país distante que é o Alentejo profundo, são bolhas nos pés. E como somos uma aldeia global, as terras além do Tejo já se fazem ouvir de outra forma e devem ter gritado tanto, que o próprio Priberam já contempla esta definição.
Fim do parêntesis vocabular

Comecei a aula e, ante a iminência de marcar uma falta de material, recorri ao Plano B e ofereci um lápis ao F., não sem antes lhe dizer que não sabia de quem era, que provavelmente o teria roubado a algum aluno no ano anterior, ao que o D., perspicaz, concluiu: “Então a professora rouba!”. Ele não devia saber qual é o feminino de ladrão, por isso improvisou e pelo improviso, em vez de me ofender, confirmei, adiantando que é mais forte do que eu, que não me consigo controlar. Discretamente, alguns jovens começaram a proteger os seus pertences. Gosto de impor o meu respeitozinho.
Montes e vales percorridos, qual amazona destemida, cheguei à outra sala. Estavam todos ansiosos, um até me disse “Está 3 minutos atrasada”. Deu-me vontade de lhe bater, mas ao pôr-me no lugar do petiz,  senti-lhe a tristeza por já ter perdido esses três minutos de uma aula de excelência e até lhe sorri. Pensei também fazer destas corridas um desafio, a ver se melhoro o tempo que faço entre uma sala e outra, que é como quem diz a ver se encurto a viagem até ao caixão.
Na aula, o P. disse que era insuportável, eu concordei, até porque gosto de eufemismos. Disse também, o Pedro, que 2ª feira vai “fazer qualquer coisa para ir para lá”, o adverbiozinho refere-se aqui ao blogue, às crónicas. Quer a imortalidade, o jovem!
Depois disto, esgotada, fui ter com outros petizes. Estes, até para respirarem precisam da minha ajuda...dá-me cá umas ideias... 90 minutos depois esperavam-me os últimos. Eu, já esfrangalhadinha, só me ocorreu dizer-lhes: “Vamos todos fingir que estamos entusiasmadíssimos, que são 8:20 da manhã e esta é a nossa primeira aula” e lá levámos a coisa, ansiosos pelo intervalo das 10h.
E assim vão os dias.

Antónia Mancha:

Quase fotógrafa. Quase blogger.Quase cronista. Professora de Português. Quase como gostaria.


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