Dia 17 - D. QUIXOTE, REBUÇADOS E UM CÃO

09 outubro 2015
O meu nome é Mancha. Antónia Mancha. Da linhagem do engenhoso cavaleiro Quixote, pelos vistos...
-Quixote de La Mancha?!, exclamou o P., na aula de Espanhol… e vá de accionar o pensamento e vá de fazer associações e chegar a conclusões, que partilhou entusiasticamente, ouçamo-lo no seu delírio:
- A pressora de Português também é Mancha!
- Sim, P., ela ainda é parente, já muito afastada, mas ainda é da família.
- Mas a pressora é só Mancha.Não tem o La.
- Isso é porque, com a evolução da língua, o La já caiu…
A voz que responde ao P. é a da colega T., a quem agradeço ter-me criado tão distinta ascendência.

Ontem tive uma ideia inspirada e hoje, entusiasmada, pu-la em prática:
- A resposta a esta questão merece um rebuçado! – convicta de que os moços se sentiriam ainda mais motivados para o estudo do Português .
Orgulhosa da estratégia que acabava de implementar, fiz a pergunta e era ver o frenesim de braços no ar.
- N., diz lá, então, qual é o feminino de ateu, concentra-te, e luta para ganhares!
- Os rebuçados são de quê, pressora?
Surgiram-me tantas coisas que poderia fazer àquela criança, mas optei apenas por, sem conseguir disfarçar a irritação, lhe dizer que queria uma resposta e não uma pergunta.

O W. anda cabisbaixo. Nota-se-lhe no olhar que a vida não lhe corre de feição. Hoje, após uma explicação, perguntei:
- Ficou claro? Perceberam mesmo??
Que sim, que estava tudo como preto no branco, que não havia dúvidas. O W., agastado com o que lhe pareceu ser impostura dos seus colegas, atirou, com o desprezo que os impostores merecem:
- Isso é o que vocês dizem. Aqui à frente da pressora todos sabem tudo.
E depois, num derrotismo pungente, três semanas após o início das aulas, o W. perguntou-me, como quem já aceitou a resposta como sina:
- Eu vou ter 2 a Português este período, não vou, pressora?
Accionei o dispositivo da psicologia educacional e lá lhe fui dizendo que não, que era muito cedo, que ainda nem tinha elementos de avaliação concretos. Depois não resisti e lá pus a adversativa, seguida de um que se pusesse a pau.

O menino da lágrima é que anda num pranto, as vizinhas de baixo agora têm um cão, o Raul. Um encanto de animal, mas um incómodo para o meu menino, que diz não dormir nada durante a noite com o ladrar do canídeo madrugada fora. Durante o dia, é uma correria pegada. Toda a gente a querer ver o Raul.
Não me admira nada que ponham o bicho a render.

Antónia Mancha:

Quase fotógrafa. Quase blogger.Quase cronista. Professora de Português. Quase como gostaria.


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