(Textos dos alunos) Maria

23 setembro 2018

Maria estava caminhando, cansada, talvez com medo por não saber o caminho que iria seguir ( eram tantos ), quando Júlia ligou a perguntar se ela não gostaria de almoçar em sua casa. Acho que por um momento ficou animada por finalmente ter para onde ir, mesmo não gostando de estar com Júlia. 
Maria era o tipo de pessoa que todos gostam de estar por perto: tranquila, profunda, sorridente, educada, mas ninguém sabia o que por dentro dela se passava. Talvez todo seu medo, na verdade, fosse afundar na sua própria profundidade e não mais conseguir seguir. Ela sabia que Júlia só tinha interesse na sua bondade, queria o mundo, mas não passava pelo caminho da conquista. 
 Para Júlia, o almoço tinha sido bom, algo normal, como no dia a dia. Para Maria fora como facadas, falsidade em forma de comida. 
Teria sido melhor ficar sem rumo, sua animação já tinha ido embora e agora ela ia voltar para a rua à procura de uma saída. Acho que na realidade Maria só queria uma oportunidade para colocar para fora toda a sua profundidade e tapar os buracos que seus erros deixaram para trás, sarando todas as suas feridas. 
 Maria só queria ver o mundo da forma certa e deixar padrões que as pessoas trazem, pensando extrair um lado bom da vida, quando tudo, na verdade, não passa de um roteiro para uma falsa realidade 
(e como ela odiava a falsidade ).


Texto de Raissa Albuquerque (9ºD - 2017/2018)


Nota:
(A Raissa foi minha aluna cerca de um mês e meio. Talvez nem tanto. Mas foi daqueles alunos que marcam muito. Veio de longe, de para lá do oceano e chegou, discreta, meiga, educada e sorridente. Trazia algo com ela, que prendia. Percebi-o de imediato. Confirmei-o quando me disse que gostava muito de Clarice Lispector. Tinha uns 14/15 aninhos e muito mundo dentro. O texto que aqui publico, bem sei, não é uma crónica, mas é tão belo, tão profundo, que, creio, me perdoam o deslize.)

Antónia Mancha:

Quase fotógrafa. Quase blogger.Quase cronista. Professora de Português. Quase como gostaria.


2 comentários on "(Textos dos alunos) Maria"
  1. Cara professora Antónia, a minha gratidão é gigantesca pela senhora. Pois através das suas aulas e seu acolhimento a minha filha, em um momento tão difícil de mudancas, foi que fez com que ela voltasse a sorrir e ter ânimo para prosseguir, e se dedicar a escola. Minha eterna gratidão. (Mãe orgulhosa da Raissa Albuquerque)

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    1. Agradeço-lhe as palavras, acredite, são um incentico muito, muito grande para continuar quando as forças começam a falhar.
      Muito, muito obrigada!

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