A outra - a crónica necessária

05 fevereiro 2019



Contrariamente à crónica anterior, esta reveste-se de uma pertinência inegável. É que, ontem, entre perguntas como “Então e a crónica?” e “Passei todo o fim-de-semana no Facebook”, também houve comentários mais sérios, revestidos de uma inegável tristeza que, naturalmente, comoveram este brando coração que trago no peito. Eis o responsável de tamanha comoção:
- Olha lá, Antónia, quando é que entraste no elevador sem que eu te visse?
Pus em funcionamento os incontáveis neurónios que trago comigo, numa tentativa desesperada de perceber exactamente a que é que a colega em causa se referia. Assomou-me logo uma pergunta: seria suposto ela ver-me sempre que entro no elevador? Ou andaria a colega a controlar as vezes que subo e desço, numa tentativa de controlar e baixar a conta da energia que a escola gasta? Já a chegar a um ponto de insustentável indignação, lá consegui alcançar o que me pretendia perguntar:
- Não eras tu! – disse logo eu, com a sensatez e a sensibilidade que tanto me caracterizam. Só depois me apercebi do olhar de desilusão com que me miravam. Numa questão de segundos, tentei “compor o ramalhete” e noutra fracção de segundos, achei melhor não piorar as coisas e disse:
- Agora tenho aula, depois falamos.
Passo a explicar: na penúltima crónica, referia a fúria da colega M.C. que passou por mim sem me ver, tal o estado de desorientação em que ia, para nem sequer reparar na pessoa que sou. Ora o que é que acontece? O que acontece é que as pessoas gostam muito da coscuvilhice e vá de lerem as crónicas, para, de alguma forma, encontrarem sentido para a sua existência. (Permitam-me este parêntesis, o sentido da existência é não ter qualquer sentido. Isto só para vos poupar a buscas infrutíferas.)
Vai daí, uma colega, que também é M.C., mas não a M.C. a quem me referia no textozinho, achou que era dela de quem falava e vá de me pedir explicações. Onde é que eu a tinha visto, sem que ela me tivesse visto e/ ou vice-versa. Foi neste seguimento que veio a tal resposta: “Não eras tu”, que quase fez verter uma lágrima à M.C. a quem não me referira.
Para que fique claro, a colega M.C. aludida é a de M., já a outra, a que teve pena de não ser ela, é de M. Faço-me entender? É que não posso passar das iniciais, por uma questão de protecção da privacidade, coisa que está muito na moda e eu gosto muito da vanguarda. Vai daí, caríssimos leitores, deixo-vos a pensar. Quem é a colega M.C. referida? Quem é a colega M.C. ignorada, mas que ansiava por ser referida?
Importa uma discussão séria em torno da questão. A colega M.C. agradece. E lá está de novo o equívocozinho.  A quem me referirei?
Depois da aula, encontrei-a. A que pensava ter sido referida e que recebeu, como faca afiada no peito, o desengano de que a M.C. não era ela. Era a outra. E disse-me ela. A que não apareceu na crónica:
- Ah, e eu a pensar que era eu…
- Não, “afinal havia outra(1)”, mas vou escrever só para ti. – assegurei.
Como não falto à palavra dada e tenho muitos testes para corrigir, aqui estou a escrever para a M.C., de M., não a M.C., de M.
E assim vão os dias…

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(1(1)  – “Afinal havia outra” –êxito musical de Mónica Sintra, essa incontornável voz da mais erudita música portuguesa.

A crónica não precisava ser escrita

04 fevereiro 2019


Que se fique já a saber que deveria estar a corrigir testes e que não estou, porque hoje, na escola, à minha passagem, uma pergunta se levantava: “E a crónica?”.  Também me chamou à atenção o comentário da Dª M.C.: “Pressora, por sua culpa passei o fim-de-semana no Facebook”, dizia-me ela que era para ver se eu já tinha publicado a crónica, mas percebi que aquilo era mais para justificar uma preguiça que é incapaz de assumir.
Ora, não entendo o alarido à volta de uma crónica, cujo assunto é não ter assunto: na sexta-feira, perdi o telemóvel e depois encontrei-o. Já está.
Seguramente ninguém vai estar à espera que eu diga que, à saída de uma das aulas, precisei dele e não o encontrei. Com a tranquilidade que me caracteriza, fui à sala dos professores, onde ainda me deixam entrar, e esvaziei o Mancha Mobile, sem qualquer sucesso, pois continuava desaparecido. Foi então o momento de pôr em marcha o plano de emergência: cara fechada, sopros da raiva que se quer conter e procurar os moços, que ao verem-me com uma expressão tão distante da simpatia, cordialidade e todas essas coisas boas que me caracterizam, também eles puseram o seu ar mais preocupado, ouvindo-me atentamente e falando-me baixinho, como quem tem medo de ferir a minha sensibilidade auditiva. No enquanto, levantavam os bracinhos, dizendo “Não fui eu, a sério!”. É claro que são todos umas “bocas de trapos” e, sem que eu precisasse de fazer mais nada, viu-se a escola toda ingerida no caso.
Praticamente foi só isto o que aconteceu na 6ª feira. Merece crónica? Não. Eu sei, mas a Dª M.C. precisa justificar o trabalho doméstico que não fez, daí que esteja aqui a escrever estas linhas.
Depois de andar tudo à procura e de me de se encostarem às paredes, quando eu passava no corredor, vendo a minha expressão pouco serena, o colega G.M. até se prontificou a ligar-me, mas eu cá disse-lhe logo que o telemóvel estava no silêncio, por isso era escusada a chamada. Raposa velha como sou, percebi logo o que ele queria era o meu número. Depois da minha recusa, bem lhe vi no rosto um trejeitozinho de contrariedade, que deliberadamente ignorei, entrando na sala, sem cabeça para nada, mas tentando dar uma aula.
Nesse momento, o T., na sua atrapalhação verbal, disse-me assim:
- Pressora há um site que com uma conta se a pressora ma der dá para ver onde ele está!
Tenho alguma agilidade mental e, enquanto ouvia o petiz, o meu pensamento tomou dois caminhos em simultâneo: por um lado,  que ele era bem capaz de ter razão e, por outro, que tinha de insistir mais na expressão oral, pois notava no jovem uma certa falta de fluência. Terminado pensamento, perguntei:
- Qual conta?
E ele respondeu:
- A sua!
Eu pensei na conta bancária, mas não lhe ia dar o número da minha falência, vai daí, retorqui:
- Qual?
- Atão pressora, no telemóvel tem uma conta e isso, é essa.
Aquele “isso, é essa” confundiu-me, pelo que voltei à carga:
- Mau! – disse já a azedar – Eu dou-te a do mail e já se vê.
Depois deste diálogo esclarecedor, o T. entrou no computador (ah, a extensão semântica), abriu a página do GMail e pediu-me que introduzisse o meu correio electrónico, que fiz, seguindo-se a password (ah, o estrangeirismo), enquanto o T., educadamente, virava a cara, dado o secretismo de tudo isto se reveste.
Enquanto a página abria, toda a turma se questionava sobre o paradeiro do telemóvel: que parecia mentira, diziam uns; que devia estar no trolley, diziam outros, ao que esclareci que já havia tirado tudo lá de dentro; depois os que afirmavam que o programa que o T. estava a usar era muito bom, que o telemóvel tocaria, ao que eu retorquia que, mesmo que o encontrasse, não ia tocar, pois estava no silêncio, e, no meio disto tudo, havia a E., que dizia, com ar circunspecto e algo misterioso:
- A pressora de certeza que foi roubada.
Terminada a frase, a sala emudeceu, os semblantes empalideceram, as pupilas dilataram-se: soava um telemóvel! Eu cá ainda pensei em averiguar para marcar a respectiva falta disciplinar, mas depois lembrei-me de que o meu estava perdido e notei que o som parecia vir do Mancha Mobile. Comecei a abrir os vários compartimentos e… nada. Mas agora havia uma certeza: o telemóvel aparecera. Já quase toda a turma com as orelhinhas encostadas ao trolley,  tudo a dizer muitas coisas ao mesmo tempo, o T., irritado, disse logo:
- Eh pá, calem-se para ver se o barulho vem de onde.
Dei-lhe razão, enquanto pensava na imperiosa necessidade de lhe aperfeiçoar a expressão.
E pronto. O telemóvel estava no trolley.
Obrigada, T. e todos os que se empenharam nesta tarefa.  
Para dizer isto era necessário escrever uma crónica? Eu creio que não.  Mas temos de ser uns para os outros, e a Dª M.C. precisava de uma justificação para o injustificável.
E assim vão os dias…