Dia 11 - Cacifos, napperons e fezes

01 outubro 2015

- Olha lá,- e eu olhei -  já foste ao teu cacifo?- e eu fui- – perguntou-me, se a memória não me falha, a N.
Imagine-se que alguém foi ao seu enxoval e de lá retirou o mais bonito napperon, num inenarrável gesto de bom gosto e desprendimento, embora, por um descuido imperdoável, não o tenha passado a ferro, invalidando, assim, tudo o que aqui se disse a propósito do gesto que teve. Além disso, quis parecer-me, que um leve odor a naftalina começou a pairar em toda a sala de professores.
É quadrado, o napperon, de linho, com uma delicada renda à volta, cujo ponto hei-de tirar para levar à minha mãe querida, que muito me agradecerá, pois poderá mostrá-lo, como troféu, a todas as vizinhas que, como ela, fazem ao desafio, pontinhos nas bordas dos panos de cozinha.
 Começa a ter ares de lar, o meu cacifo. Digo o meu, porque ainda não perdi a esperança de a D., não aguentando tamanho bom gosto, decida desocupá-lo. Isso, sim, seria uma verdadeira atitude filantrópica, mas desconfio que a D. não pensa como eu, o que lamento.
As conversas começam a ter um nível cada vez mais elevado, facto que muito me apraz. À roda da mesa, numa saudável terapia cultural, entre um folhado e um limpar de beiços, discutiam-se peculiaridades linguísticas: “A minha filha só me dá é fezes”. A frase foi proferida por uma colega nova na escola, a quem peço desculpas por ainda não saber o nome. Mas isso é irrelevante, pois não é dela tão distinto discurso, antes de uma senhora que o dirigiu à prima de um amigo do irmão da colega de quarto da colega nova.
Mas a colega nova reproduziu uma coisa dessas enquanto comiam? Que falta de educação!, pensarão. Pontos nos ii, que a colega nova tem maneiras e muito berço. Vem do Alentejo, esse outro mundo, que é a minha terra também, e onde uma filha dar fezes à mãe está muito longe dessa imagem escatológica que a vossa imaginação já vos criou.  Tal como em - Ai, vizinha, tantas fezes! não encontramos o espanto de duas mulheres a olharem e a verem excrementos até ao horizonte. Ou em, Ai, mana, que fezes tã grandes, que fezes tã grandes! não está o espanto de uma anciã ante a dimensão da sua matéria fecal.
 Apressem-se a apresentar  as vossas desculpas à senhora que tinha uma filha que só lhe dava preocupações, à vizinha que também as tinha e à anciã que tantos desgostos a vida lhe dá.

Quanto ao napperon, agradeço-o, uma vez mais, pedindo a quem teve tão singular gesto que se identifique, e que traga um ferro para dar conta dos vincos marcados pelo tempo. Que não me deixe nestas fezes, portanto.

Nota: confirme aqui a  definição do Dicionário Priberam Alentejano.

Antónia Mancha:

Quase fotógrafa. Quase blogger.Quase cronista. Professora de Português. Quase como gostaria.


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