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Contributo para o estudo da loucura

28 setembro 2017

Isto às vezes dá uma certa vontade de cortar os pulsos, mas como seria um grande desassossego, opto por me rir, que sempre é mais higiénico e até dou um ar de pessoa (ainda mais) simpática.
Ora ontem, a propósito de um exemplo que dei sobre o adjectivo, qualquer coisa como “O R. é simpático.”, a T., não sei se enciumada, aventou-me logo à cara com um “Isso é uma metáfora de ironia, nã é?” , T., é, respondi, mas com um apertozinho, porque era notório que havia colocado todo o seu entusiasmo naquela resposta.
Depois deste doloroso dever que me cumpre que é, também, o de corrigir estes jovens companheiros de jornada, já noutra aula, pedi à M. (sim, a dos eufemismos como “coisas fofinhas”) que lesse, coisa que faz muito bem e de que gosta. Infelizmente o timing  não foi o melhor , dizendo-me logo com um despacho que a minha parca capacidade de escrita não me permite aqui reproduzir:
- ‘Pere pressora, tenho de apanhar o cabelo, isto parece um ninho de ratos. A minha mãe diz sempre isso.”
Eu o que fiz? Esperei, naturalmente, que eu cá, quando me vêm com comparações derreto-me toda.
Já hoje, estou toda vaidosa. É que, enquanto me dirigia para o fundo da sala, fazendo uma escorreita explicação sobre a flexão verbal, a evidência da minha elegância não deixou o M. indiferente, que, timidamente, comentou com o colega “A pressora ‘tá cada vez mais magra”. Ah, o que eu gosto destes mimos. É claro que ele não estava a ser irónico, até porque a balança não engana e de há uns meses para cá já aniquilei para cima de 200g!
Continuei a aula, confesso que com uma certa confiança, afinal também tenho direito a uma vaidadezinha de vez em quando e, enquanto trabalhavam, lembrei-me de que nunca tinha perguntado ao V. há quanto tempo estava em Portugal e então disse:
- Oh, V., há quanto tempo estás em Portugal?
Ele lá me respondeu e disse que quando chegou à escola ficou numa turma de 29 alunos, rematando, com um sorriso bem mais vaidoso do que aquele que eu ostentava desde que o M. notou que eu tinha menos 200g e com o sotaque açucarado do Português brasileiro:
- Já viu, professora, 28 rapazes e a única rapariga da turma vai logo gostar de mim?
Eu cá sorri e ordenei logo que voltassem ao trabalho.
Sentei-me, no meu escritório imaginário, cuja entrada é feita por uma imaginária porta de vidro com sensor, e onde se dirigem os alunos que necessitam da minha ajuda, nunca esquecendo que, por vezes o sensor não é tão rápido quanto eles, pelo que devem aguardar uns instantes até poderem passar.
O A. precisava de um esclarecimento, aproximou-se, eu disse-lhe que tivesse cuidado com a porta, ele teve, esclareci-o e o A. ficou parado e não voltava ao seu lugar.
- A., o que fazes aqui? Volta para a tua mesa!
Tou à espera que a porta abra, pressora.

Mas de onde tiram eles estas ideias???

A abrangência do verbo coisar e o perigo da metáfora

22 setembro 2017

Não sou muito de me queixar, mas ninguém é de ferro e lá desabafei com os meus jovens o quanto lamentava o facto de já não me darem matéria para as crónicas. Foi o A. que, com toda a clareza, me fez ver aquilo que, seguramente por distracção minha, ainda não tinha percebido.
- Nós crescemos, professora, nós crescemos…
Ao que o P. acrescentou:
- Ya, agora tem de coisar com os do 7º ano!
Em concordância, só me saiu um “pois”, como quem já a aceitou a fatalidade.
Mas o A. não ficou esclarecido e perguntou ao P.:
- Coisar é o quê?
- Dá para dizeres várias coisas com coisar - disse ele, seguro.
Sem querer criar intrigas entre os dois amigos, digo eu, que bem vi, havia um certo ar professoral na sua expressão. Aliás, quase que posso afirmar que vislumbrei uma superioridadezinha na forma como o P. colocou a voz.
O dia prosseguiu e mesmo a encerrar a semana, vá de falar em metáforas ao meu PCA. Já havia referido o galinheiro, quando me dirigi às quatro jovens, que não se calavam; já havia falado na perna da mesa, nas lesmas que eram a escrever, tudo belas e pertinentes metáforas, quando decidi apontar para as bochechas, perguntando:
- E isto??
O ar era de mistério e vá de dizerem a primeira coisa que lhes vinha à cabeça. Mas não todos, que a J., ponderada e segura, disse logo:
- As olheiras da pressora!
Eu cá sorri-me, mas confesso, tive uma vontade imensa de lhe dizer que ela é que tinha olheiras a chegar às maçãs do rosto, em vez disso, sorri-lhe. 
Para mostrar que não fiquei minimamente ressentida com a gargalhada da turma, até lhe elogiei a escrita, focando, sobretudo, a do M., que me disse logo, antes que eu começasse com ideias parvas:
- Mas olhe que não escrevo muito mais, não pense!
Eu cá não penso nisso. Só na forma de apanhar a J. aí num sítio onde não se veja a ponta de um corno e dizer-lhe que eu desta vez fiz vista grossa e engoli o sapo, mas da próxima estarei armada até aos dentes e o melhor é baixar a bolinha se não quiser que lhe chegue a roupa ao pêlo.

E depois disto, está bem de ver, o sumário da próxima aula será : Estudo das expressões idiomáticas.

Autobiografias e palavrões

20 setembro 2017
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Hoje quis ver de que é que os moços são capazes na escrita. Pedi-lhes uma autobiografia. “Uma quê?” lá iam perguntando e depois de lhes explicar o palavrão, que é coisa de que não gosto, puseram mãos à obra. Ora o M.C. estava a sentir-se muito perdido e comentou que se eu fizesse perguntas era muito mais fácil. Eu, que não gosto de ver ninguém em aflições (é isso e palavrões), decidi pôr uns tópicos para o orientar. O primeiro era “identificação”. Passaram uns minutos e o N.M. chamou-me para perguntar se era preciso pôr o número do CC.. Esclarecida a dúvida, os jovens continuaram. Ao fundo, ouvi um “Fogo, isto mexe bué”, o que me deixou a pensar, mas por pouco tempo, porque o M.C., visivelmente agastado, retoricamente perguntava ao J.I. por que é que ele ‘tava a espreitar, se era para tirar ideias. Ora, apesar do tom de voz, o M.C. estava coberto de razão, pois a ser verdade que o J.I. estava a querer copiar, isso seria uma usurpação de identidade, o que não está certo. Além disso, o M.C. até já tinha o seu texto pronto. Achava ele, não fosse não ter atingido o limite mínimo de palavras, aspecto para o qual lhe chamei a atenção. Contrariado, lá me tentou convencer de que aquilo já chegava. Como não me demovia, tentou impressionar-me:
- ‘Tã nã chega porquê? Tenho aqui 9 ou 10 vírgulas, tenho pontos finais e tudo! Nã chega porquê?
Lá argumentei e devo tê-lo feito de forma francamente convincente, porque o M.C. pôs novamente mãos à obra e segundos depois já tinha escrito um parágrafo inteiro.
Percebi que a contagem de palavras é um assunto que terei de estudar com os moços. É que o G.B., com duas linhas escritas, assegurava-me que já tinha as 150 palavras, que já passava e tudo. Ora eu, que não perco uma oportunidade de ganhar seja o que for, quis logo apostar que não estavam. Ele não se convencia, até que me pus a contá-las à sua frente, ao que me respondeu:
- Ah, mas não é assim…
Percebi que contara as letras.
Depois foi a vez do R.:
- Oh pressora, 16 é duas palavras não é?
Confusa, fiz uma expressão abstracta, ao que ele me esclareceu:
- ‘Tão “um” e “seis”.
Eu não respondi, felizmente chegou por ele à resposta correcta. Há que dar espaço à autonomia dos jovens, sempre defendi isso!
À autonomia, mas não à falta de respeito, que é coisa de que não gosto, sobretudo se acompanhada de palavrões. Como o que acontecera na aula anterior, quando, tentando que me dissessem o nome de uma função sintáctica, começaram a atirar-me com todos os Complementos de que já tinham ouvido falar e outros inventados no momento. Altura em que o R. disse:
- Predicado!
Eu cá fiquei logo enervada e a minha expressão mudou. Perguntei quem é que tinha dito aquilo. O R. acusou-se, sorridente, assegurando que tinha dito “ao calhas”.
Aproximei-me dele de semblante carregado, pus-me à sua frente e, olhos nos olhos, disse-lhe:
- Já conversámos sobre desrespeito e esta será a última conversa sobre este assunto. Não admito esta falta de educação nas minhas aulas, não admito que voltes a repetir esta palavra! Faço-me entender?!
O R., humilde, baixou a cabeça e pediu desculpas.
A T. é que não se deixou ficar e disse logo, na sua habitual delicadeza:
- Nã sejas burro, nã vês que ela ´tá a gozar contigo?

Esta foi a forma da T. dizer que predicado era a resposta correcta.

"Ganda laxa"

13 setembro 2017

Com o pé direito, lá entrei, caloira, na escola para me apresentar a uma turma de PCA. Tudo correu dentro da normalidade, pequenas notas apenas dignas de registo, nomeadamente o pedido do G.E.S. para que entregue as fotocópias já furadas, pedido esse que me levou a registar na minha agenda: - comprar furador dos grandes.
Depois, enquanto falava dos critérios de avaliação e dos trabalhos que vão ser realizados ao longo do ano lectivo, ouviu-se uma voz que perguntava se aquilo era o sumário, era o G.B., que tinha uma expressão "entre o sono e o sonho", sem saber muito bem o que estava ali a fazer.
Para terminar, perguntei aos moços o que os trouxera até este percurso, assiduidade diziam uns, retenções, diziam outros, assiduidade e retenções, assegurava a maioria, até que chegou a vez de uma jovem, cujo nome ainda não memorizei, que deu a resposta  que a seguir se reproduz:
- Oh pressora, no ano passado eu 'tava no regular, mas já viu o que é ir para uma turma de 9º regular com a minha idade?? Ganda laxa! - e antes que eu fizesse qualquer pergunta, adiantou-se a esclarecer:
- Laxa é vergonha, 'tá a ver?
Ya, 'tou a ver, respondi-lhe eu, em pensamento, enquanto lhe agradecia o ter-me ensinado uma palavra cuja existência nem imaginava. Ganda laxa para uma professora de Português!