Dia 8 - Pontualidade e moscas mortas

por - segunda-feira, setembro 28, 2015



Gosto de entrar a meio de um bloco: desde logo, porque o corredor está vazio e posso fazer todo o percurso como uma pessoa em pleno uso das suas capacidades mentais; depois, porque vou render um colega e observar, condescendentemente, o seu nervosismo a arrumar os pertences e a desculpar-se pelo atraso, por não se ter apercebido de que já estava na hora. Que não faz mal, que acontece a todos, digo eu, o que é verdade, não confesso é o gostinho perverso que sinto. Afinal, a causa de toda a sua agitação é a minha pontualidade. “Britânica”, dirá o colega sobre mim até ao fim do ano lectivo, entre o pasmo e a ironia.
(Parecendo coisa pequena, cai sempre bem, porque assim que o boato começa é um passo até a ser a professora mais pontual da escola. Do Agrupamento. Quiçá, da própria cidade.)
Ora tudo isto seria muito bonito, se a C.R. não me tivesse trocado as voltas. Como não quer que eu ganhe fama de pontual à conta do seu atraso, deixou a porta da sala aberta. Ao ver-me aproximar, calmamente, terminou o raciocínio, despediu-se dos alunos e sorriu-me. Notei-lhe, sim, quando passou por mim, um certo ar de vitória. Eram 11h em ponto. Retribui o sorriso, claro, mas o nosso olhar engalfinhou-se, numa cumplicidade hostil.
À parte este episódio, pouco há a registar: “ Nem respirem, que estou nervosa”, vi que um aluno sobre esta associação ia colocar uma questão, só não percebi por que se calou, mal cruzámos o olhar.
O F. e a M., a quem pedi que saíssem na aula anterior, estiveram francamente bem. Participativos e muito cuidadosos, tentando manter-se na sala até ao fim, o que conseguiram com grande mérito.
O V. e o N. estavam muito agitados, parei, olhei-os, ignoraram-me, continuei parada e o V., simpaticamente, esclareceu-me:
- O N. atirou-me p’ra qui um bicho morto! – apontando para uma mosca que atravessava a mesa a toda a pressa e, depois, voluntariamente, quis parecer-me, atirou-se para o chão, numa falhada tentativa de suicídio.
Não tive oportunidade de intervir, pois antes que o fizesse, o N. quis esclarecer-me, dizendo que era uma mosca viva sem uma asa. Ao que o V. respondeu: “Ah, é a mesma coisa!”
Julguei ser o momento oportuno para explicar a importância da coerência do discurso. Neste caso, a falta dela, já que, segundo o V., uma mosca sem uma asa é a mesma coisa que uma mosca morta. O problema foi a metaforazinha. Afinal, muito se pode dizer sobre uma mosca morta, eu é que não me senti com forças para isso.

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